A opinião de ...

Notas soltas

Em Portugal, todos reclamamos, de tudo e de todos. No entanto, não reclamamos, de facto, porque não escrevemos, mas, se escrevêssemos, tudo prescreveria por impossibilidade de análise por falta de tempo e de meios. Se fosse de outro modo, comprometer-se-ia o atavismo português, o do «povo que não se governa nem quer ser governado» (Júlio César, 70 a 44 aC; Salazar, 1934). Somos um povo que quer ser feliz, mas sem se chatear com nada e, de preferência, trabalhando o mínimo possível e recebendo o máximo possível. O Nirvana é o seu instinto de paz e felicidade, a ataraxia do velho Epicuro.
Chocou-me o conjunto de dados publicados recentemente sobre o nosso PIB agrícola (https://pt.tradingeconomics.com/portugal/gdp-from-agriculture): 992 mil milhões de euros, em 2026, em queda desde os 1218 mil milhões de 1996.
Não me admira este PIB tão pequeno na agricultura. Por um lado, na ac tividade agrícola, passam-se muito poucas facturas. Por outro, a rentabilidade empresarial é muito baixa e, por outro ainda, a produtividade do trabalho agrícola nem sequer está quantificada.
«Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão», escreveu António Feliciano de Castilho, e o povo apadrinhou-o. O mesmo autor, invocado amiúde por Salazar e António Ferro, acrescentou que «na desordem ninguém se entende, na revolução, ninguém se respeita».
No entanto, bem mal irá o mundo, para tantas pessoas de outros países virem procurar o seu sustento e das respectivas famílias nestas paragens. Dizem que já são 1,600 milhões, mais os 250.000 naturalizados portugueses. Sinal de que, afinal, isto não é tão mau como nós o pintamos, e de que o nosso mal será proporcional à nossa desorganização. No entanto, quando se fala em racionalização e em optimização, é um «ai, jesus», invocado até pelos não crentes. Teria já razão Júlio César?
Se Júlio César já tivesse razão, então estará justificada a necessidade de um Estado Forte, o mesmo que tantos defenderam, desde D. Dinis a Salazar a Caetano e Franco Nogueira, a Spínola, a Mário Soares, a Sá Carneiro. Porém, a palavra autoridade, confundida com autoritarismo e repressão, é uma palavra maldita. Vejamos um exemplo.
Se a GNR recebe ordens para apertar a vigilância e o controle das práticas de circulação e trânsito, é um «ai, jesus», porque é uma prática fascista e repressiva. No entanto, são esta vigilância e este controlo que salvam vidas. Acrescentam os que defendem o progressismo democrático que tanto controlo não é necessário porque as infracções são uma questão de educação cívica e, então, o que é necessário é apostar nesta. É um argumento da treta, nesta área e em todas as outras, porque não há educação para o bem sem a repressão do mal. Andou mal João Paulo II em acabar com a alegoria do Céu e do Inferno, porque nenhuma educação se ganha sem a estratégia do pau e da cenoura. Céu significa prémio e Inferno, castigo.
Observei as discussões em tono das questões da PSU e da Reforma Laboral e vejo que os problemas acabados de enunciar se lhes aplicam: facilitismo de um lado e rigor tecnocrático exagerado, do outro. E não há meio de encontrarmos o justo meio, desde Aristóteles a Stuart Mill.

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