O tempo de estar e de ficar
Há encontros que começam sem grande plano: uma cadeira numa das esplanadas tão bonitas e apetecíveis que Bragança tem, um café ou um fininho ou mais, uma conversa despretensiosa e bem-disposta que se prolonga e, quando damos por ela, eis que a tarde já se foi.
Talvez tenha sido essa mesma a melhor maneira de a viver.
Por esta razão, e por outras, pode dizer-se que há qualquer coisa de singelo no verão. São os dias mais longos, as agendas livres e simplesmente a possibilidade de estarmos assim “um pouco mais devagar”.
É uma estação grata e realizadora pois se constitui como uma oportunidade para estarmos mais com os amigos. Simplesmente e apenas estar. Conversar, partilhar uma mesa, recuperar as conversas em dolce far niente.
Noutras alturas do ano, talvez porque a vida nos habitue à pressa, vamos adiando encontros com a facilidade com que adiamos outras coisas. Dizemos “temos de combinar”, prometemos telefonar, deixamos mensagens por responder. Tantas vezes, sem darmos conta, podemos acabar muito acompanhados e pouco encontrados.
O verão concede-nos esse tempo. Não apenas tempo livre, mas tempo disponível, pois há uma diferença grande entre uma coisa e outra.
Todos conhecemos a frase célebre de Saint-Exupéry, das mais belas sobre os vínculos humanos, colocada na boca da raposa: “foi o tempo que perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.”
Também os amigos se tornam importantes pelo tempo que lhes damos. Pelo café que se prolonga, pela conversa sem assunto definido, pela visita sem motivo, pelo telefonema que não cabe numa mensagem.
Ora, estar com os amigos vale sempre a pena. Com os verdadeiros, que não serão muitos. Nunca foram, pois são aqueles que gostam de nós apenas pelo que somos e permanecem quando não têm nada a ganhar.
Na verdade, nas amizades o número não conta. Contará mais sabermos e sentirmos que a sua disponibilidade, a sua empatia e o seu cuidado para connosco não dependem de conveniências nem de utilidades recíprocas. Um amigo não é alguém de quem precisamos porque nos pode ser útil, nem por nós o sermos para ele.
Na verdade, é um facto que usamos muitas vezes a palavra “amigo”. Chamamos amigos a colegas de trabalho, companheiros de lazer, pessoas com quem partilhamos momentos agradáveis. Tudo isso tem valor, mas os amigos são mais do que isso. São companheiros especiais da viagem que é a nossa vida.
Não sendo família, tornam-se presença familiar. Sabem escutar, ajudam-nos a continuar quando o caminho não está fácil e que não nos faltam quando fazem falta.
São aqueles que, como as crianças na praia, sabem que as ondas chegarão e que os castelos de areia podem desfazer-se e, ainda assim, não deixam de nos animar a construir, pela felicidade que sentem ao ver-nos felizes.
Conhecem os nossos limites, medos, fragilidades e muitos dos nossos defeitos, mas persistem em estar connosco. São aqueles que nos fazem bem, tantas vezes em silêncio e sem cobranças.
O Papa Francisco escreveu que “a amizade é um presente da vida e um dom de Deus”. Talvez seja precisamente por ser dom que não entra em qualquer contabilidade e, algo paradoxalmente, é quando não esperamos nada dos amigos que, muitas vezes, recebemos tudo.
No fim, talvez a amizade seja quando alguém escolhe ficar connosco e nós que escolhemos ter tempo para ficar também.
