A opinião de ...

O papel do autarca: entre o espetáculo da proximidade e a verdadeira gestão municipal

Vivemos na era do autarca em permanente estado de digressão festiva!
Em tempos de redes sociais e de uma busca incessante por validação eleitoral contínua, multiplicam-se os executivos municipais que parecem ter como principal métrica de desempenho o número de quilómetros percorridos entre inaugurações de pequenas obras, romarias, certames gastronómicos e eventos e mais eventos.
O edil do século XXI procura estar em todo o lado ao mesmo tempo: em cada arraial, em cada procissão, em cada corte de fita, e em cada pequeno acontecimento transfigurado em mega-evento local.
É o designado edil ubíquo!
Há três ou quatro décadas atrás, o paradigma era profundamente diferente.
Os autarcas do passado não sentiam a necessidade de se exibirem constantemente nem de transformarem o mandato num palco diário.
Entendiam a política sem espetáculo, assumindo a liderança local como uma missão desinteressada e despretensiosa, focada essencialmente em resolver os problemas concretos das pessoas sem a exigência de holofotes ou aplausos imediatos.
Hoje, impõe-se a pergunta: será este exibicionismo a faceta ou o papel nuclear de quem governa um município?
Não se trata de desvalorizar o tecido festivo e cultural das nossas regiões. As festas populares, as celebrações religiosas e as feiras desempenham um papel inquestionável na preservação da identidade cultural, na coesão comunitária e na dinamização do comércio de proximidade.
E o autarca deve, obviamente, comparecer, mas com conta, peso e medida. E senso!
De facto, o problema surge quando as autarquias transformam a animação festiva numa prioridade estratégica desmesurada, alocando fatias substanciais do orçamento público a eventos massivos cuja quantidade parece servir mais a agenda de visibilidade do executivo do que o desenvolvimento sustentável do concelho.
Vende-se a ideia de que a omnipresença física do autarca é o expoente máximo da “política de proximidade”. Contudo, é urgente desmistificar este conceito.
A presença num arraial garante a fotografia sorridente e o aperto de mão rápido, mas essa “proximidade de palco” é muitas vezes uma ilusão de contacto que mascara uma enorme distância entre governante e governado.
Estar fisicamente perto de todos nas horas de lazer não significa estar atento às pessoas e aos seus problemas.
Pelo contrário: ao tentar estar, desesperadamente, em todas as festas, o edil arrisca-se a estar tragicamente ausente da verdadeira gestão do município e a criar apenas a ilusão e a máscara do facto,
A governação local exige hoje um perfil que vai muito além do mero animador de eventos. Um autarca com visão foca-se em dois pilares essenciais:
Gestão de Gabinete: Governar é resolver a vida prática das pessoas longe dos holofotes. Significa planear a urbanização, aplicar cada euro dos fundos europeus com rigor, garantir serviços básicos impecáveis (água, lixo, transportes) e investir na habitação. É o trabalho invisível, mas é o que realmente muda o dia a dia da população.
Diplomacia Económica: O concelho não vive isolado. O presidente da câmara tem de ser um agente itinerante do município: ir a Lisboa, negociar com o Governo, bater à porta de empresários e trazer investimento nacional e estrangeiro. É isso que cria empregos que pagam bem, fixa os jovens e põe dinheiro a circular no comércio local.
Porém, quando a agenda fica refém do calendário festivo, a visão de futuro é sacrificada.
Por isso, o líder local de que as comunidades precisam não é o figurante que pulula de evento em evento na busca de visibilidade fácil e do voto garantido.
É o gestor sério e o diplomata ativo, é o agente que prefere servir, e que percebe que a melhor forma de servir é saber ouvir e atender as pessoas, focando-se na resolução dos seus problemas.
Ouvir e atender quando lhe é pedido, estar acessível, sem agenda, mas no imediato, e, num curto espaço de tempo resolver os seus problemas e angústias, sem os atirar para as calendas gregas.
Tudo, menos ser mais um figurante na catadupa festiva, mesmo que isso signifique falhar alguns arraiais e perder alguns votos!
E, acima de tudo, dar o exemplo, do dever-ser!

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