Uma história demasiado antiga..
Desde há muito que falamos do abandono do Interior do país. Mas o abandono institucional do Interior não começou agora. A história da presença militar em Bragança demonstra-o de forma particularmente clara. Segundo a investigação do CEPESE divulgada pelo blogue “Memórias… e outras coisas…”, já em 1855 a Câmara Municipal pedia ao Governo que conservasse na cidade o Batalhão de Caçadores n.º 3, por considerar a sua permanência “necessária” e “urgente”.
Em 1868, perante a extinção do Regimento de Cavalaria n.º 7, o município voltou a reclamar a colocação de outro corpo militar ou, pelo menos, de um destacamento. Em 1871, insistiu novamente junto do Governo e do Ministério da Guerra.
A presença militar acabaria por desaparecer na década de 1970. O Batalhão de Caçadores n.º 3 foi extinto no âmbito da reorganização do Exército, permanecendo durante algum tempo um destacamento dependente de Vila Real, também ele posteriormente encerrado. Chaves, Vila Real e Lamego conservaram unidades militares; Bragança, cidade fronteiriça e historicamente ligada à defesa do território, ficou sem uma presença permanente.
Décadas depois, vale a pena perguntar se essa decisão continua a servir o interesse nacional e o equilíbrio regional. O regresso do Exército a Bragança, vontade de que o Mensageiro dava conta, mais uma vez, na edição passada, não deve ser encarado apenas como uma reposição histórica ou sentimental. Uma unidade militar representa postos de trabalho, famílias, consumo local, procura de habitação, alunos nas escolas e atividade económica. Representa ainda capacidade logística, formação, presença institucional e resposta em situações de emergência. Como o incêndio que, na semana passada, começou em Valpaços e veio por aí fora, atacando Mirandela, Vinhais, Macedo de Cavaleiros...
O Exército poderia desempenhar um papel relevante na proteção do território, reforçando, em articulação com a Proteção Civil, os bombeiros, a GNR, o ICNF, a vigilância das florestas, a prevenção durante os períodos de maior risco, o apoio logístico e a intervenção em catástrofes.
A concentração de unidades em Chaves, Vila Real e Lamego pode compreender-se à luz da organização interna das Forças Armadas, mas parece redundante quando analisada do ponto de vista da coesão territorial. Uma redistribuição que incluísse Bragança permitiria alargar a cobertura, reforçar uma zona fronteiriça e contribuir diretamente para combater as assimetrias regionais.
Não se trata de retirar a umas cidades para oferecer a outra. Trata-se de perguntar se o mapa dos serviços públicos e das instituições nacionais responde ao território real ou se continua preso a decisões tomadas noutras épocas, noutros tempos.
É fácil proclamar a valorização do Interior, criar Secretarias de Estado, Estruturas de Missão. Mas o difícil é tirá-la do papel e traduzi-la em decisões concretas.
Se todos os critérios forem apenas populacionais, os territórios mais despovoados perderão sempre, porque têm menos habitantes. Mas têm menos habitantes precisamente porque perderam serviços, oportunidades, emprego e presença do Estado. É um círculo vicioso: retira-se porque há pouca população e a população diminui porque tudo é retirado.
A coesão territorial exige inverter esta lógica. Há serviços que devem existir não porque dão lucro ou atingem determinados rácios, mas porque garantem igualdade, soberania e dignidade. Uma ambulância no Interior não pode ser avaliada pelos mesmos critérios de uma viatura numa área metropolitana. Um quartel em Bragança não pode ser medido apenas pelo número de militares, ignorando o efeito económico, demográfico, estratégico e social que produz.
O Estado não pode limitar-se a chegar ao Interior através de comunicados, plataformas digitais ou promessas de proximidade. Tem de estar fisicamente presente.
Com ambulâncias que transportem doentes. Com profissionais. Com escolas, tribunais, repartições e forças de segurança. E, por que não, novamente com o Exército?
