Pe. Estevinho Pires

A melodia na garganta

Há quem queira pintar a manta e vestir-me com cores partidárias. Na infância, diziam-me que o rubro me assentava bem, talvez prevendo acesos debates de sacristia. Nem ontem, nem hoje, nem rubro, verde, rosa, laranja, ou azul-celeste. Até uma camisa me incomoda se antevejo leituras enviesadas no tribunal da esquina, ou no adro da igreja. Há anos que o branco e o cinza contrastam na indumentária, com o colarinho clerical usado com orgulho (e sem desprimor para os administrativos).


Bispo Vermelho, com sabor a laranja, lazarina

A eficácia da proteção social no Nordeste Transmontano resultou da arquitetura de redes humanas. Entre o final de 1980 e o início de 1990, a liderança de D. António José Rafael, então Bispo de Bragança-Miranda, desempenhou um papel marcante e polémico.
Personagem mediática, cultivou uma imagem complexa. Atribuíram-lhe o epíteto de “Bispo Vermelho”, embora o rótulo não correspondesse à sua matriz teológica. Confrontava o Governo e denunciava o abandono e a falta de acessibilidades na região.


Encerra a obra sem Chave d’Ouro

Não há pachorra para o silêncio resignado perante a descaracterização do centro histórico de Bragança. Sem canudos, nem letras gordas, escrevo com as minhas capelas, puxando pelo brio que me racha a alma. Há quarenta anos assisto a dolorosos ataques ao património do burgo. O espaço virou estaleiro imobiliário, sem avisar que era a memória viva da comunidade.


Livro memória e recuperação urgente da Capela

A Feira do Livro devolveu a Bragança algo maior do que livros, devolveu-lhe o gesto de afirmar que, neste interior profundo, também se lê, também se escreve, também se pensa, também se resiste. A Feira acendeu luz onde tantas vezes se supõem espessas sombras. Trouxe ficção, história, poesia, ciência, e trouxe, sobretudo, participação. Num país tantas vezes puxado para o litoral, lembrou que o interior não é margem, é centro de vida.


Tributo a Ilídio Mesquita, ou a atualidade de uma causa

O meu amigo diácono Ilídio Mesquita, de saudosa memória [+28 12 2018], permanece como uma daquelas figuras que o interior deve guardar com estima, não por folclore sentimental, mas porque fez aquilo que o Estado tantas vezes esquece: defendeu vidas. Simples no trato, firme quanto baste na convicção, foi capaz de transformar uma causa local numa lição nacional. Assim aconteceu na “manif pelo Heli”, em 2012, quando ergueu a voz pela permanência do helicóptero do INEM em Macedo de Cavaleiros.


Sexo, álcool, drogas e caixas de esmolas

Uma denúncia entregue à Polícia Judiciária e revelada pelo Correio da Manhã, depois aprofundada pela MAGG/Observador, expôs alegados encontros sexuais entre sacerdotes das dioceses do Porto e de Braga, realizados em casas paroquiais e outros espaços, envolvendo álcool, drogas leves e suspeitas de desvio de esmolas. As dioceses afirmam desconhecer os factos, mas a gravidade das acusações reacende a urgência de reforçar transparência, disciplina e responsabilidade pastoral.


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