Respire fundo. Agora tussa
Os da minha geração haverão de se lembrar de uma rábula do Raul Solnado: a ida ao médico. Depois de ter “ficado” com um panarício e meia dúzia de bicos de papagaio, deu baixa ao hospital onde foi examinado por um médico que depois de o auscultar lhe pediu para tossir e ele tossiu, tussa mais disse-lhe e ele obedeceu, por fim insistiu, tussa mais ainda e o Solnado cheio de boa fé, tossiu ainda mais levando o clínico a concluir: o seu mal é tosse! Aparte o anedótico o que é de realçar é que, nesse tempo, como muitos ainda se lembrarão, o estetoscópio era um aparelho fulcral para os médicos de então avaliarem a saúde dos seus pacientes através dos sinais recolhidos, indiretamente, dos fluxos respiratórios. Ainda hoje o tubo de borracha, saindo de uma campânula metálica e bifurcando para duas hastes com auriculares é um identificador inconfundível de qualquer profissional de saúde, em exercício. Mesmo sendo a auscultação uma prática quase obrigatória em qualquer consulta médica, a análise do estado de saúde é, atualmente, caracterizada por uma plêiade de exames e análises, complementares.
Porém, um projeto de investigação, em curso na Fundação Champalimaud e já numa fase avançada, promete abradar ou reverter o crescente recurso a TAC’s Ressonâncias, Endoscopias e tantos outros exames cada vez mais diversificados e sofisticados.
Desde tempos imemoriais que os médicos auscultam o peito dos seus pacientes porque os pulmões são um órgão onde convergem ou têm expressão vários marcadores dos sinais vitais de cada um de nós. Mas se a análise do ar respirado for além da observação das suas características físicas audíveis, seguramente que o conhecimento do que o conforma revelará muito mais sobre o metabolismo de cada um. Tendo em devida conta que o sangue percorre todo o corpo, irrigando e alimentando todas as células, enquanto recolhem o dióxido de carbono resultante da atividade normal dos diferentes órgãos, carreando-o para os alvéolos pulmonares onde este é libertado por troca com o oxigénio inspirado, conclui-se, com razão, que o ar expirado terá, necessariamente, moléculas provenientes de todas as partes do organismo. A sua análise há de revelar muito do estado em que cada componente se encontra, e das moléstias existentes, mesmo que ainda em fase embrionária, mesmo que não haja qualquer outra queixa ou sinal.
Submeter o ar expirado a uma bateria de testes e análises, em laboratório, para além de ser uma tarefa hercúlea, teria um custo absolutamente incomportável. O que os investigadores da Champalimaud estão a desenvolver é um sistema de “observação” do ar com vários sensores muito sofisticados, cujas indicações são enviados e analisados por um elaborado algoritmo de inteligência artificial que detetará e sinalizará vários sintomas de doenças, com especial incidência em cancros, muitos deles silenciosos e ainda embrionários, permitindo terapias muito eficientes e que, de outra forma, só seriam conhecidos em estados mais avançados e, seguramente, mais difíceis de debelar.
