A opinião de ...

No fim, ninguém pede mais dinheiro

continuação da edição anterior)
Em compensação, havia uma frase que regressava vezes sem conta. «Pode ficar mais um bocadinho?»
Durante muito tempo pensei que aquele pedido nascia do medo da morte. Hoje acredito que nascia, antes de tudo, do amor pela vida. Porque só quem descobriu o valor da presença pede mais presença. Só quem percebeu que o tempo está a terminar compreende que nenhum bem material consegue substituir uma pessoa sentada ao nosso lado.
Foi então que comecei a olhar para o mundo com outros olhos.
Passei a reparar em quantas vezes estamos fisicamente presentes e emocionalmente ausentes. Pais que respondem a e-mails enquanto os filhos lhes contam o dia de escola. Casais que partilham a mesma mesa, mas não o mesmo olhar. Amigos que se encontram para conversar e passam metade do tempo a olhar para um ecrã iluminado por vidas alheias. Não é falta de afecto. É outra coisa. É a ilusão de que podemos dividir infinitamente a nossa atenção sem dividir também o nosso coração.
Talvez a grande pobreza do nosso tempo não seja a escassez de recursos. Talvez seja a escassez de presença.
Passamos anos a trabalhar para proporcionar uma vida melhor às pessoas que amamos. Fazemo-lo por elas. Não duvido disso. Mas, sem darmos conta, corremos o risco de lhes oferecer conforto em vez de companhia, segurança em vez de disponibilidade, presentes em vez de presença. É um paradoxo silencioso. Construímos casas maiores e, por vezes, temos menos tempo para habitar o lar. Enchemos a agenda para garantir o futuro e esquecemo-nos de viver o único tempo que verdadeiramente possuímos: este instante.
Anos depois, continuo a recordar aquela cadeira.
Não me lembro da marca dos equipamentos médicos nem dos números inscritos nos monitores. A memória apagou muitos nomes, muitas datas e muitos diagnósticos. Mas nunca apagou aquela cadeira. Porque foi ali que compreendi que amar raramente consiste em fazer coisas extraordinárias. Amar é, quase sempre, permanecer quando já não há nada para resolver. É recusar a tentação da fuga. É oferecer ao outro o único bem que não pode ser comprado, emprestado ou recuperado mais tarde: a nossa presença.
Passei anos a pensar que entrava naqueles quartos para preparar pessoas para morrer. Só muito mais tarde compreendi que eram elas que me estavam a ensinar a viver.
Ensinavam-me que uma vida não se mede pelo património que deixa, mas pelas ausências que evita. Que o verdadeiro sucesso talvez consista em haver alguém que, um dia, ao recordar-nos, não fale primeiro daquilo que fizemos, mas da forma como o fazíamos sentir. Que o amor nunca precisou de grandes discursos para ser reconhecido. Bastou-lhe, desde sempre, uma cadeira ao lado de uma cama.
Um dia, também o nosso lugar ficará vazio. A cadeira onde costumávamos sentar-nos à mesa da família será ocupada por outra pessoa. Os nossos livros passarão para outras mãos. As chaves da nossa casa abrirão outras portas. O mundo continuará, como sempre continuou.
Nesse dia, dificilmente alguém recordará quanto dinheiro ganhámos. Mas recordarão, talvez, se tínhamos tempo para ficar. E essa poderá ser a única riqueza que verdadeiramente sobreviva à nossa ausência.

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4100

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