Tributo a Ilídio Mesquita, ou a atualidade de uma causa
O meu amigo diácono Ilídio Mesquita, de saudosa memória [+28 12 2018], permanece como uma daquelas figuras que o interior deve guardar com estima, não por folclore sentimental, mas porque fez aquilo que o Estado tantas vezes esquece: defendeu vidas. Simples no trato, firme quanto baste na convicção, foi capaz de transformar uma causa local numa lição nacional. Assim aconteceu na “manif pelo Heli”, em 2012, quando ergueu a voz pela permanência do helicóptero do INEM em Macedo de Cavaleiros. Não por teimosia, mas porque sabia que, por estas terras, a distância não é um detalhe: é uma sentença.
A sua intervenção ecoou num território habituado a despedidas discretas, tão discretas que quase parecem coreografadas para não incomodar. A história recente de Bragança pode, aliás, ser lida como uma linha do tempo da retração do Estado, conduzida com a elegância burocrática de quem prefere que ninguém repare:
1992 — o comboio partiu para “long’e d’aqui”, “desandando de Bragança às três da manhã, sem bilhete nem vergonha”.
1993–94 — o Batalhão de Caçadores n.º 3 segue para Chaves, embalado pelo clássico triplo passo governativo: negar, minimizar, confirmar.
Anos 1990–2000 — delegações regionais emagrecem, perdem quadros, perdem voz, perdem utilidade.
2000–2007 — Agricultura, Desenvolvimento Rural, Veterinária, IEFP: tudo “integrado”, “longo d’aqui”, “lá p’r’os confins”.
2007–2008 — a Direção do Parque Natural de Montesinho perde autonomia; a Região de Turismo do Nordeste Transmontano é extinta.
2010–2020 — Finanças despromovidas, conservatórias fundidas, valências de saúde deslocadas, RTP/RDP reduzidas ao mínimo.
Se isto fosse um relatório académico, chamar-se-ia processo cumulativo de desinstitucionalização territorial. Por cá, prefere-se a versão curta e precisa: “isto já por cá andou”, ou, em bom “transmontanês”, “já t’hei visto por aí.”
E é neste contexto que regressa a discussão sobre o futuro do helicóptero do INEM. A região observa o processo com a serenidade de quem já conhece o guião, mas não confundamos serenidade com resignação. A ciência política chama-lhe “regularidade histórica”. O interior chama-lhe outra coisa: paciência a prazo.
Porque há limites. E o limite, aqui, tem nome: vidas humanas.
E agora, Ilídio, quem fará soar a tua voz? Ou vais tu próprio, com esse riso resplandecente e a tua teimosia luminosa, arranjar maneira de nos lembrar que as causas justas não esperam por ninguém, e que, quando o Estado hesita, alguém tem de lhe lembrar que o mapa também tem Norte.
