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47 anos depois: como fazer as pazes com o Parque Natural de Montesinho

O Parque Natural de Montesinho é uma das mais extraordinárias áreas protegidas de Portugal, criada em 1979 para preservar um património natural, paisagístico e humano singular.
Celebrar este aniversário é muito mais do que recordar uma data. É refletir sobre a visão daqueles que, há quase meio século, compreenderam que este território merecia ser protegido, valorizado e transmitido às gerações futuras. Foi essa visão que levou à classificação do Parque Natural de Montesinho, reconhecendo os seus valores naturais, paisagísticos e humanos, mas também o potencial que aqui existia para um desenvolvimento harmonioso entre as pessoas e a natureza.
Ao longo destes 47 anos, Montesinho tornou-se uma referência nacional e internacional.
Não apenas pela riqueza da sua biodiversidade, pelos seus rios, serras, carvalhais e soutos, mas também porque continua a ser um território vivo, habitado, trabalhado e cuidado por milhares de pessoas distribuídas pelas suas aldeias.
Mas importa dizer, com toda a clareza, que nenhum parque natural sobreviverá apenas por força da lei ou das entidades que o administram. Um parque natural só existe verdadeiramente quando as pessoas o sentem como seu.
Por isso, nesta ocasião simbólica, gostaria de deixar uma mensagem muito simples: devemos fazer as pazes com o Parque Natural de Montesinho.
Durante anos, houve quem olhasse para o parque sobretudo através das limitações, das condicionantes e das restrições que a proteção da natureza inevitavelmente impõe.
Compreendo essas preocupações. Mas não podemos continuar a olhar para o parque apenas pelo que não deixa fazer. Devemos, sobretudo, olhar para aquilo que nos permite ser.
O Parque Natural de Montesinho é uma extraordinária oportunidade de futuro.
Num mundo cada vez mais urbanizado, onde milhões de pessoas procuram autenticidade, tranquilidade, natureza preservada e experiências genuínas, nós temos exatamente aquilo que muitos procuram. Temos paisagem. Temos património. Temos biodiversidade. Temos cultura. Temos gastronomia. Temos tradição. E temos aldeias que continuam a preservar uma identidade única.
É por isso que o turismo de natureza representa hoje uma das maiores oportunidades para este território.
Cada visitante que escolhe percorrer os nossos trilhos, observar a fauna e a flora, conhecer as nossas aldeias ou permanecer alguns dias entre nós está a gerar rendimento para as famílias, para os restaurantes, para os produtores locais e para os alojamentos turísticos.
Cada casa recuperada para alojamento local representa um edifício salvaguardado e uma família que encontra uma nova fonte de rendimento.
Cada jovem que decide investir na sua aldeia está a contribuir para manter vivo um território que muitos consideravam condenado ao despovoamento.
O parque não é um obstáculo ao desenvolvimento. O parque é, cada vez mais, uma condição para um desenvolvimento sustentável e diferenciador.
É também neste espírito de responsabilidade partilhada que queremos assumir um novo compromisso com o futuro deste território, através do Plano-Piloto de prevenção e redução do risco de incêndio e recuperação de habitats no Parque Natural de Montesinho, “Montesinho Mais Resiliente”.
i) Restaurar as áreas que foram percorridas por incêndios;
ii) Promover a prevenção e a redução do risco de incêndio no PNM;
iii) Implementar ações de desenvolvimento socioeconómico, que incluam a valorização dos recursos endógenos e promovam a criação de novas oportunidades de negócio;
iv) Informar, auscultar e envolver ativamente a população residente e os agentes locais na implementação do plano, com enfoque para o reforço do papel da ação humana na Gestão do Fogo Rural.
Por isso, o maior desafio para os próximos anos talvez não seja aumentar o número de visitantes, nem criar mais infraestruturas. O maior desafio será fortalecer a ligação emocional das pessoas ao seu território.
Que cada habitante das aldeias do Parque seja também um embaixador deste território.
Que cada criança aprenda a valorizar aquilo que herdou.
Que cada visitante encontre aqui uma comunidade orgulhosa da sua identidade.
E que todos compreendamos que proteger a natureza não significa impedir o progresso. Significa garantir que o progresso acontece sem destruir aquilo que nos torna únicos.
Hoje, ao celebrarmos 47 anos do Parque Natural de Montesinho, homenageamos todos aqueles que contribuíram para a sua preservação: as populações locais, os agricultores, os pastores, os baldios, as juntas de freguesia, as associações, os investigadores, os técnicos e todas as instituições que, ao longo das décadas, ajudaram a construir esta história coletiva.
O futuro do Parque Natural de Montesinho dependerá da nossa capacidade de trabalhar em conjunto, de conciliar conservação e desenvolvimento, tradição e inovação, natureza e qualidade de vida.
Tenho a convicção de que saberemos estar à altura dessa responsabilidade.
O Parque Natural de Montesinho não é apenas um parque natural. É parte da nossa identidade, é parte da nossa história e tem de continuar a ser parte do nosso futuro.

(Presidente da Câmara Municipal de Bragança e da Comissão de Cogestão do Parque Natural de Montesinho)

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