Do IPB à UNI.B
Qualquer análise à questão da transformação do IPB em Universidade permitiria concluir que esta seria apenas uma questão de tempo, uma vez que o mérito para tal sempre existiu.
Esta caminhada começou em 1983, com a tomada de posse do primeiro Presidente da Comissão Instaladora, o Prof. Lima Pereira.
O grande impulsionador e timoneiro deste caminho foi o Prof. Dionísio Gonçalves que, ao assumir a presidência do IPB, em 1988, teve a visão de que só a criação de uma sólida capacidade científica poderia assegurar o futuro de uma instituição que se queria afirmativa. Na altura, o IPB contava com um conjunto significativo de jovens docentes, e a pressão individual, acompanhada dos apoios institucionais, para que apostássemos nos nossos doutoramentos era enorme. Ao fim de meia dúzia de anos, já éramos mais de trinta doutorados, enquanto nos restantes politécnicos esse número variava entre zero e dois. Naturalmente, esta diferença foi-se acentuando ao longo do tempo e revelou-se determinante para a afirmação futura da instituição.
Com esta capacidade científica distintiva, o IPB passou a dispor de bases sólidas para reivindicar e demonstrar que o percurso natural seria a sua transformação em Universidade.
Neste caminho, tivemos sempre a região connosco: a sociedade civil, as suas instituições e os seus autarcas, com particular relevo para o Eng. Jorge Nunes, que liderou a criação da Comissão Pró-Universidade. Em outubro de 2000, esta Comissão entregou no Parlamento uma petição subscrita por 15.266 cidadãos, defendendo a criação da Universidade de Bragança com base no IPB.
Ao longo dos anos existiram sempre resistências, não por falta de reconhecimento da qualidade do IPB, mas pelo receio de que a sua passagem a Universidade abrisse uma verdadeira “caixa de Pandora”, levando outros politécnicos e respetivas regiões a reclamarem a mesma evolução, sem que existisse, em todos os casos, uma qualidade que a sustentasse.
Dentro de casa, o espírito que prevaleceu foi sempre o de continuarmos a pugnar por este objetivo, promovendo a criação da Universidade “por dentro”, isto é, continuando a apostar no aprofundamento das nossas capacidades científicas e na ligação à região.
Já durante a minha presidência do IPB, que assumi em junho de 2006, enfrentámos alguns percalços e propostas que poderiam ter colocado em causa todo este trabalho e percurso. Refiro-me, em particular, às enormes pressões para que o IPB se fundisse com a UTAD, apresentando-se essa solução como o antídoto para todos os problemas da instituição. O que seria hoje da nossa instituição e da sua capacidade de afirmação se tivesse seguido esse caminho? Que capacidades científicas e de inovação ainda existiriam? Quantos alunos teria hoje o IPB? Recordo que o IPB é atualmente a instituição de ensino superior com o maior número de alunos, entre universidades e politécnicos, de todo o interior do país.
Mas, como referi no início, sabíamos que esta evolução seria uma questão de tempo. E o momento certo surgiria quando existisse uma abertura nacional para esta transformação. Esse caminho iniciou-se com a aprovação, pela Assembleia da República, em abril de 2023, de uma lei que passou a permitir aos institutos politécnicos a atribuição do grau de doutor. O Prof. Orlando Rodrigues, que assumiu a presidência do IPB em julho de 2018, propôs imediatamente à Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior três doutoramentos, cuja aprovação foi determinante para que o IPB cumprisse um dos requisitos fundamentais para a sua passagem a Universidade.
Entretanto, a Assembleia da República aprovou, em julho de 2026, a Lei n.º 32/2026, que prevê a conversão automática dos institutos politécnicos com acreditação institucional sem condições em universidades politécnicas. Prevê ainda, expressamente, a possibilidade de uma universidade politécnica ser convertida numa universidade mediante decreto-lei.
Neste contexto, este foi o momento certo para que o IPB apresentasse a proposta de criação da Universidade do Norte Interior e Bragança (UNI.B), que veio a ser a primeira a ser anunciada ao abrigo do novo enquadramento legal, assente na avaliação do mérito institucional. As duas instituições anteriormente criadas, em Leiria e no Porto, surgiram num contexto distinto, anterior a este quadro de avaliação, e no âmbito da resposta do país à tempestade Kristine.
Parabéns ao IPB e à sua região.
Parabéns à sua comunidade académica — alunos, colaboradores, docentes e investigadores — que, ao longo destes anos, soube afirmar uma instituição de excelência num dos territórios com maiores desafios geográficos, demográficos e sociais do país.
Parabéns à nossa região, que sempre acarinhou, defendeu e acreditou na sua instituição de ensino superior.
Um reconhecimento sentido a todos os que contribuíram para que, em sucessivas avaliações e rankings europeus, o IPB fosse reconhecido como o melhor politécnico português.
A partir de agora, só podemos esperar mais: mais afirmação, mais inovação, mais investigação e mais internacionalização, a bem da Região e de Portugal.
(Antigo presidente do IPB, ex-Secretário de Estado e ex-Deputado)
