A opinião de ...

A Arte como Valor (Parte II)

Já imaginastes, caros leitores, o grande escritor russo Lev Tolstoy (1828-1910), autor das mundialmente conhecidas e celebradas obras Anna Karénina e Guerra e Paz, escrevendo ao longo de cerca de 15 anos, na sua propriedade na aldeia de Iasnaia Poliana, o ensaio designado O que é a Arte? (1898, 8.ª edição, 2026, Ps. 19 e 94). Trabalho de uma grande reflexão e revelador da sua perseverança em conhecer o que acontecia no mundo da ciência, da literatura e da arte. Ali lhe chegavam as obras que lia e sobre as quais refletia (em Guerra e Paz poderemos aprender e refletir sobre o que se passa nesta época em tempos de guerra por todo o lado). Segundo ele «a arte não é uma busca pelo belo ou pelo prazer, mas sim um meio de comunicação humana», e que pode ser sintetizada nas seguintes ideias-força, próximas do pensamento cristão, ele, que combateu as desigualdades: (i) Comunicação de sentimentos, ou seja, a arte funciona como a linguagem; as palavras transmitem pensamentos, enquanto a arte transmite emoções; (ii) Rejeição do belo, devendo ser separado do bem; a arte focada apenas no prazer ou na beleza é vazia e elitista; (iii) O valor moral, ou seja, a verdadeira arte deve promover o bem comum e unir a humanidade sob valores universais e de amor ao próximo. Naturalmente, esta concepção de arte nem sempre teve os mesmos significados ao longo dos séculos.
Sobre o que é a Arte e do que pretende significar para o Homem, muitos autores (filósofos, historiadores, sociólogos e psicólogos), se têm manifestado, de que pessoalmente me interessei: (i) na Antiguidade (Platão, Aristóteles, que tinham perceções diferentes: o primeiro crítico dos artistas, para quem a arte seria incapaz de alcançar a verdade do mundo das Ideias; o segundo acreditava que a arte tinha uma função purificadora); para Kant (séc. XVIII) o belo era um “prazer desinteressado”, que deveria agradar de forma universal e imediata, mas sem estar preso a utilidades práticas e desejos; (iii) Na pós-modernidade, há autores que procedem a uma abordagem sociológica, como, por exemplo, Theodor Adorno (1903-1969) para quem a arte, na sociedade capitalista, foi transformada numa mercadoria padronizada para alienar as massas, quando deveria estar ao serviço de todos os homens.
Concluindo: seja qual for o domínio da arte de que falamos, ela tem a ver com o domínio técnico do artista, com a capacidade de provocar sensações no observador e exibir uma mensagem em si. Significa que deve existir um diálogo ente o artista, através da sua obra, e o apreciador.
Então, do que falamos? Referimo-nos ao cesteiro, oleiro, poeta, músico, escultor, pintor, artista performativo, ou seja, a todos quantos se preocupam em transmitir uma mensagem, algo que não pode encerrar a ideia de consumo, como se estivéssemos a tratar de algo tangível, material que se vai diluindo, como se se tratasse de prazer isolado. Seria uma espécie de “consumo da arte”, o que também a Inteligência Artificial pode concretizar. Poderá?
(Continua)

Edição
4104

Oferta para Assinantes

Cartão Moeve