A opinião de ...

a arquitectura transmontana a gostar dela própria – Genius Loci

É nos momentos de ameaça e de perigo, como aqueles que vivemos todos os anos na época de verão, em que a região (e o país), se sobressalta com os incêndios recorrentes, que nos lembramos da importância dos lugares que escolhemos para viver. Talvez porque já não alcancemos esse momento fundador, perdido no tempo e na correria do nosso dia-a-dia actual, esquecemos vezes de mais a importância identitária do nosso território e, dentro dele, das várias unidades de um chão comum profundamente humanizado e sedimentado.
Numa altura em que a arquitectura aparece associada a formas que parecem não ter origem nem fundamento, talvez seja conveniente devolvermos a nossa atenção e olhar para o carácter dos lugares. Christian Norgerg-Schulz ajuda-nos a fazer essa reflexão, ao relembrar que, mais do que a função ou a estética, a arquitectura deve servir de suporte ao significado da experiência espacial. O Genius Loci aparece assim como o espírito do lugar que a arquitectura tem como principal objectivo tornar visível. Ou seja, a arquitectura deve revelar algo que já existe, tornar explícita a memória e identidade dos lugares.
Quando Álvaro Siza Vieira refere que o mais importante nas suas obras é o sítio, são as marcas do tempo nos lugares, e que nenhum sítio é deserto, está a referir-se precisamente a esse espírito dos lugares, que anima e informa a arquitectura. A um ‘fio ramificado de apoio como instrumento de invenção’.
Os lugares não são contentores herméticos, mas espaços de diálogo que a arquitectura deve ter a capacidade de traduzir em habitat, humanizando-os. Talvez seja por não o fazermos tanto quanto deveríamos, que as nossas aldeias, vilas e cidades deixaram de ser lugares de encontro. Schulz chama a esse regresso aos lugares e às coisas, de fenomenologia da arquitectura, por se concentrar em tudo que se apresenta perante nós e na importância sensorial do espaço arquitectónico. Não será, portanto, de estranhar, que, ao referirmo-nos a determinado acontecimento, digamos que ‘teve lugar’. Porque a vida não acontece no vazio, precisa de sítio. Mais do que uma localização abstracta, o lugar é composto por coisas concretas, matéria, forma, textura, cor, cheiro.
Para os romanos, que definiram o Genius Loci como o espírito guardião dos lugares, era fundamental chegar a um acordo com o espírito dos lugares que habitavam, do qual dependia a sua sobrevivência. Será esse espírito, esse carácter local que desempenha um papel fundamental para conferir identidade aos assentamentos, já que os assentamentos põem em evidência a verdade da arquitectura, ou seja, definem os limites a partir dos quais começam a ter presença. Talvez tenha sido por terem chegado a acordo com o espírito dos lugares que os romanos escolheram Chaves e Castro de Avelãs, onde tornaram visível um ambiente completo e a identidade que perdura ainda hoje, clarificando uma paisagem com imagens reconhecíveis. Estou seguro que é por essas mesmas razões que lá devemos voltar, uma e outra vez, para agarrar os fios condutores que nos ajudem a reconstruir os nossos lugares.

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