Segada tradicional em Palácios atrai cada vez mais visitantes
O Festival da Cultura e Tradição voltou a recriar, em Palácios, no concelho de Bragança, a segada manual e outras etapas do antigo ciclo do pão, como a malha, numa iniciativa que atrai cada vez mais visitantes à região da Lombada.
O evento juntou habitantes da aldeia, emigrantes, turistas e participantes provenientes de diferentes regiões portuguesas e de Espanha. O programa incluiu a segada, o encontro de gaiteiros, artesanato, produtos da terra e gastronomia tradicional e a malha tradicional.
Raul Tomé, um dos responsáveis pela organização, fez um balanço positivo da iniciativa, destacando o aumento do número de visitantes de fora da região.
“Temos aqui um grupo jeitoso para manter mais uma vez a tradição da segada manual e para a dar a conhecer aos jovens”, explicou ao Mensageiro.
Entre os participantes estavam pessoas que nunca tinham assistido a uma segada e outras que regressaram à aldeia para recordar práticas agrícolas vividas durante a infância e a juventude.
Segundo Raul Tomé, as unidades de turismo rural da zona estiveram lotadas, obrigando alguns participantes e músicos a procurar alojamento na cidade de Bragança.
“É bom dar uma vida nova às aldeias e à zona da Lombada, que é culturalmente uma das zonas mais ricas do país”, sustentou.
A organização do festival envolve praticamente toda a população de Palácios, que trabalha voluntariamente na preparação das atividades e das refeições.
“Já somos poucos e começa a sobrar muito trabalho para pouca gente. Todas as pessoas trabalham e colaboram gratuitamente na organização do festival”, contou Raul Tomé.
A presidente da União das Freguesias de São Julião de Palácios e Deilão, Porfíria Margarido, considerou o festival de “extrema importância” para as aldeias, por recuperar um trabalho com o qual se identificam sobretudo os habitantes mais velhos.
“Nós, os mais jovens, ficamos com a lembrança das histórias que nos contaram e vamos repetindo as coisas que ouvimos”, afirmou.
Entre os visitantes estavam pessoas de Vila Nova de Famalicão, de diferentes localidades espanholas e do Planalto Mirandês. Para a autarca, muitos procuram o festival porque conheceram estas práticas no passado e querem revivê-las.
“As aldeias estão a ficar desertificadas. Esperamos que as pessoas mais novas consigam entrar neste espírito de tradição”, apelou Porfíria Margarido, garantindo que a junta de freguesia continuará a apoiar o festival.
A presidente da Câmara Municipal de Bragança, Isabel Ferreira, salientou o espírito comunitário existente em Palácios e a capacidade da população para manter vivas as tradições.
“Todos trabalham em comunidade e todos trabalham para o mesmo fim”, destacou.
Para a autarca, a segada deixou de ser apenas uma tarefa agrícola e ganhou componentes recreativas, festivas e sociais importantes para a dinamização das aldeias.
“O caminho das nossas aldeias passa muito por este tipo de iniciativas, que mantêm a autenticidade das atividades rurais, mas com uma componente que chama também o turismo e as pessoas que querem visitar e participar”, explicou.
A presidente considera que a tradição faz parte da identidade de São Julião de Palácios e deve ser divulgada, embora o festival tenha de manter uma dimensão compatível com a capacidade da população local.
“É preciso tirar as pessoas de casa e ajudá-las a participar nestas atividades, mas sempre a uma escala sustentável e que permita repeti-las ano após ano”, defendeu.
Leonel Azevedo, natural de Vizela, participou pela primeira vez na segada.
“É espetacular. É um relembrar de há 40 anos”, descreveu.
O visitante defendeu que estas práticas devem ser transmitidas às gerações mais novas para não desaparecerem.
“Temos de manter as tradições e incutir esta ideia nos jovens, para não perderem o fio. Caso contrário, depois nem sabem o que isto é, porque agora é tudo digitalizado”, concluiu.
