Bragança

Primeiro eclipse do sol em mais de 100 anos atrai milhares ao Nordeste Transmontano

Publicado por António G. Rodrigues em 06-08-2026 09:57

O primeiro eclipse total do Sol visível em Portugal desde 1912 deverá levar milhares de visitantes ao Nordeste Transmontano no próximo dia 12 de agosto. A elevada procura já esgotou grande parte da oferta hoteleira e do alojamento turístico da região, sobretudo nas localidades próximas da faixa de totalidade.

Rio de Onor e Guadramil, no Parque Natural de Montesinho, encontram-se entre os melhores locais do país para observar o fenómeno, com uma ocultação total do disco solar durante cerca de 26 segundos. Contudo, devido ao risco de incêndio e às limitações de segurança, a organização oficial foi transferida para o Aeródromo Municipal de Bragança.

A presidente da Câmara de Bragança, Isabel Ferreira, considera que este será “um momento muito importante” para o concelho e uma oportunidade para proporcionar aos visitantes uma experiência única.

A autarca explicou que compete ao município garantir que a observação decorra num local com condições adequadas de segurança, acolhimento e vigilância. A análise dos dados desde 2021 indica que, nesta altura do ano, o território apresenta habitualmente risco máximo ou muito elevado de incêndio rural.

A decisão foi também influenciada por um fogo recentemente registado nas proximidades do local inicialmente previsto para receber a observação.

“Consideramos que, se decorrer no aeródromo municipal, a experiência será proporcionada de forma absolutamente segura”, afirmou Isabel Ferreira.

Todas as atividades de 12 de agosto estarão concentradas no aeródromo a partir das 16:00. O programa inclui o acompanhamento de especialistas, explicações sobre as diferentes fases do eclipse, oficinas, atividades científicas e espaços de convívio. As iniciativas deverão prolongar-se após o fenómeno, com observações do céu e das chuvas de estrelas.

A elevada procura é particularmente sentida em Rio de Onor. José Preto, representante da aldeia na União das Freguesias de Aveleda, Varge e Rio de Onor, revelou que a localidade se preparava para receber cerca de 2.500 visitantes.

As sete casas de turismo rural existentes na aldeia estão esgotadas, o parque de campismo tem reservas e os dois restaurantes antecipam um aumento significativo da procura.

“Está tudo ocupado, está tudo esgotado”, confirmou José Preto, destacando também o impacto esperado para os artesãos, associações e outros negócios de Rio de Onor e Varge.

A aldeia tinha preparado várias iniciativas, incluindo atividades com o Centro Ciência Viva de Bragança na Casa do Povo e na antiga escola primária, além de tasquinhas e espaços de acolhimento distribuídos pela localidade.

“Tínhamos previsto uma série de iniciativas. Estávamos preparados para 2.500 pessoas”, explicou José Preto, lamentando que as restrições impostas pelo risco de incêndio coloquem em causa parte do programa.

Apesar da mudança, a aldeia continuará a receber os naturais que regressam nesta época do ano, assim como visitantes que reservaram alojamento antecipadamente.

Fenómeno só voltará a ocorrer em Bragança em 2480

A diretora do Centro Ciência Viva de Bragança, Clotilde Nogueira, explicou que um eclipse total ocorre quando a Lua se posiciona entre a Terra e o Sol e encobre completamente o disco solar.

O último fenómeno com estas características visível em Portugal aconteceu em 1912, na região do Minho. Em Bragança, uma oportunidade semelhante só deverá repetir-se em 2480.

Durante os cerca de 26 segundos de totalidade previstos junto à fronteira, o dia dará brevemente lugar à noite, tornando possível observar a coroa solar e algumas estrelas. A redução repentina da luz poderá também provocar alterações no comportamento dos animais, levando algumas espécies a recolherem como se tivesse chegado o final do dia.

No Aeródromo Municipal de Bragança, a ocultação deverá situar-se entre 99,8% e 99,9%, a maior percentagem prevista numa cidade portuguesa, mas sem atingir a totalidade.

“Não é o mesmo que um eclipse total, estaria a mentir se dissesse que era, mas também é um fenómeno muito raro com esta percentagem de ocultação”, ressalvou Clotilde Nogueira.

A GNR vai mobilizar um dispositivo reforçado para acompanhar o fluxo de milhares de visitantes e impedir concentrações descontroladas nas áreas rurais e florestais. O comandante António Lobo de Carvalho explicou que serão posicionados meios nos pontos onde se prevê que aficionados possam tentar observar o eclipse, nomeadamente junto de Guadramil e Rio de Onor.

“Sabemos que haverá pessoas a procurar os locais onde a visibilidade será de 100%. A Guarda vai ter um dispositivo reforçado”, adiantou.

Festival Geração Ciência prepara Bragança para o eclipse solar

Clotilde Nogueira

A observação integra o Festival Geração Ciência, que assinala os 30 anos da Ciência Viva e terá uma forte componente dedicada à astronomia, nos dias 10 e 11 de agosto, com um programa dedicado à divulgação científica.

As atividades decorrerão em vários espaços da cidade, incluindo o Centro Ciência Viva, a Casa da Seda, o Auditório Paulo Quintela, o pavilhão do IPDJ, o Teatro Municipal e algumas praças do centro histórico.

O programa começa na manhã de segunda-feira com uma saída fotográfica sobre a natureza em espaço urbano, sessões de planetário dedicadas aos eclipses, a apresentação do livro “Mestre Carbono, Cientista” e um espetáculo de circo matemático.

A abertura oficial está marcada para as 14:00, na Casa da Seda, com intervenções da presidente da Câmara de Bragança, Isabel Ferreira, da diretora executiva da Ciência Viva, Ana Noronha, do presidente do Instituto Politécnico de Bragança, Orlando Rodrigues, e da diretora do Centro Ciência Viva local, Clotilde Nogueira.

Durante os dois dias haverá oficinas científicas, sessões de observação do Sol, animação de rua, espetáculos de ciência, magia e matemática, formação em astrofotografia e observações do céu noturno.

Na tarde de dia 10, o investigador Paulo Cortez apresenta o estudo que pretende avaliar os efeitos do eclipse na fauna selvagem. No dia seguinte, Pedro Mota Machado, comissário nacional do Eclipse 2026, participa numa sessão dedicada ao fenómeno, juntamente com os responsáveis dos planetários do Porto e de Braga.

A programação de 11 de agosto inclui ainda uma saída de campo sobre o lobo-ibérico em Guadramil e a “Noite Geração Ciência”, no Teatro Municipal, com investigadores, divulgadores científicos, responsáveis institucionais e o músico Noiserv.

O festival termina com a “Astro Night Party”, que junta observação do céu, acompanhamento de astrónomos e animação musical. Algumas atividades estão sujeitas a inscrição prévia.

A programação científica culmina no dia 12, no Aeródromo Municipal de Bragança, com a observação acompanhada do eclipse solar, cuja ocultação deverá atingir cerca de 99%, seguida da observação da chuva de meteoros Perseidas.

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