José Rodrigues: O Barro de Trás-os-Montes e os Inéditos de Junqueiro
A humanidade é seara imensa em chão de areia,
Que Deus recolhe e Deus semeia.
(Guerra Junqueiro)
Estava longe de imaginar que fosse Guerra Junqueiro a trazer-me de volta Mestre José Rodrigues. O pretexto é a breve saída de uma edição bilingue – em português e mirandês – do livro As Orações de Junqueiro: Oração ao Pão, Oração à Luz. De certo modo, esta obra assume um carácter histórico também ao publicar, pela primeira vez, dois retratos de Guerra Junqueiro executados a pastel pelo Mestre em 2001. É o fechar de um ciclo perfeito: o criador que se inspirou na nossa terra a ilustrar o poeta que cantou as dores e as grandezas do nosso povo, unindo a palavra sagrada da planície transmontana à força telúrica das mãos que moldavam o pão e a arte.
Este regresso ganha uma força redobrada quando o tempo nos impõe uma dupla contagem: celebram-se os 90 anos do nascimento de Mestre José Rodrigues (1936-2016) e assinalam-se dez anos sobre a sua partida. Evocar o escultor é, inevitavelmente, regressar à nossa terra profunda. Nascido em Angola – berço que partilhamos e sobre o qual conversámos algumas vezes –, o Mestre dividiu as origens africanas com as paisagens de Alfândega da Fé, onde viveu parte da infância. Ali, entre o vermelho vivo e a doçura das cerejas, o menino carregou o olhar com o imaginário bíblico e a crueza da condição humana que mais tarde transportaria para a matéria.
Essa identidade – que ele próprio definia como uma matriz “judaico-cristã” – fixou-se-lhe na pele. Numa entrevista memorável que gravei em vídeo, conduzida pelo meu saudoso Professor, teólogo e amigo Arnaldo de Pinho, o Mestre confessava essa herança do olhar: “Nos lavradores de Alfândega da Fé vi a injustiça, o desprezo, a miséria. [...] Na Bíblia encontrei sobretudo desassossego”. Foi ali, nesse contacto primitivo com a argila do chão e com as narrativas do Antigo Testamento escutadas na infância, que verdadeiramente nasceu o artista que, décadas mais tarde, recusava em absoluto ser um mero “funcionário das artes”.
Para os bragançanos, este legado está vivo no coração da Diocese, fundido na própria pedra dos nossos lugares de culto. Quem entra na Sé Catedral de Bragança encontra duas das suas criações de arte sacra mais pungentes e contrastantes: a sua magnífica Pietá, rasgada pelo sofrimento, e o seu discreto São José. São peças expostas na sua dor e na sua verdade terrosa, que nasceram também do barro e da violência que o Mestre viveu na Guerra Colonial, longe do formalismo académico e decorativo. Na entrevista, Arnaldo de Pinho lembrava o grande desafio teológico de “colocar a transcendência na imanência... desatar o nó da encarnação”. José Rodrigues desatava-o precisamente assim: metendo as mãos na argila do mundo e devolvendo-nos um Deus feito carne, próximo dos humilhados.
Sei que, em breve, Alfândega da Fé vai oferecer-nos uma exposição com trabalhos do Mestre, devolvendo-o ao território que o moldou na meninice. Perante este feliz acontecimento, seria bonito, porventura justo e até necessário que a Diocese, em conjunto com mais uns quantos municípios da região, pensassem numa “ação concertada”. Urge criar um roteiro, uma sinergia cultural que ligue o património público e sacro deste criador maior, potenciando o impacto da efeméride e fixando a sua rota artística na paisagem de Trás-os-Montes.
Guardo a memória viva de uma visita solitária que o Mestre me proporcionou à sua sala dos barros. Poucas vezes o coração se me disparou como diante daquelas figuras do Antigo Testamento, onde a matéria parecia ainda pulsar sob a força dos seus dedos. Ali compreendi o que ele disse na entrevista: “Sabe, eu acho que sou um personagem do Velho Testamento”. Dez anos após a sua morte e a despedida no tanatório de Matosinhos, José Rodrigues continua a caminhar connosco. Na rua, na arte e, de forma muito especial, na alma desassossegada de Trás-os-Montes.
