Uma nova morada para Junqueiro
Uma língua afirma-se pelos livros que pode chamar seus. É essa a ideia que me acompanhou no passado dia 7 de julho, na Casa da Cultura Mirandesa, em Miranda do Douro, durante a apresentação da edição bilingue de “As Orações de Junqueiro: Oração ao Pão e Oração à Luz”. A escolha da data não foi casual: cumpriam-se cento e três anos sobre a morte de Guerra Junqueiro.
As efemérides olham, demasiadas vezes, para trás. Desta vez aconteceu o contrário. A evocação do poeta serviu para abrir a sua obra ao futuro, através da tradução de António Bárbolo Alves, das fotografias de Jorge Morais e de uma edição conjunta das chancelas Frauga e Alforria, apresentada no âmbito da Semana da Cultura Mirandesa.
Seria, porém, injusto sugerir que Junqueiro só agora entrou na língua mirandesa. Não entrou. Esse caminho começara antes com Amadeu Ferreira e a tradução do poema “Regresso ao Lar”. O centenário da morte do poeta, em 2023, trouxe novas etapas desse percurso: “Fiel”, por Alfredo Cameirão; “O Melro”, por António Bárbolo Alves; “A Lágrima”, por Ana Afonso. A presente edição representa, contudo, um momento distinto. Pela primeira vez, “A Oração ao Pão” e “A Oração à Luz” – dois dos textos maiores de Guerra Junqueiro – passam a integrar, em volume bilingue, o património literário da língua mirandesa.
Há muito que a “Oração ao Pão” não é para mim um simples poema, mas meditação sobre o que sustenta silenciosamente a vida: o trabalho, a terra, o tempo, a comunidade, a esperança e a dignidade das coisas aparentemente pequenas.
Há na “Oração ao Pão” uma reflexão sobre a dignidade da matéria e sobre a transformação do sofrimento em alimento, uma visão do mundo onde o trigo, o homem e a terra participam da mesma ordem moral. A “Oração à Luz” amplia esse horizonte. O pão liga o homem à terra, a luz liga-o ao cosmos. Uma desce às raízes; a outra eleva o olhar. Entre ambas constrói-se uma das mais ambiciosas arquiteturas poéticas da nossa literatura.
Traduzir estes textos significa, por isso, muito mais do que encontrar correspondências vocabulares. Traduz-se uma cadência, uma imaginação do mundo. Traduz-se até o silêncio que existe entre as palavras. António Bárbolo Alves refletiu precisamente sobre essa exigência nas recentes edições da sua “Pluma Braba”. Quem conhece o seu trabalho sabe que esta tradução nasce de um diálogo antigo e profundo com as duas línguas.
Fala-se frequentemente da preservação das línguas minoritárias. A expressão é justa, mas fica aquém. Não basta preservar uma língua, como se preserva uma peça de museu. Uma língua vive quando continua a criar, a traduzir, a pensar e a alargar o seu património. Cada grande livro que nela encontra morada aumenta também as possibilidades da própria língua. As línguas sobrevivem quando são capazes de receber os clássicos; os clássicos sobrevivem quando encontram novas línguas onde continuar a respirar.
No passado dia 7 não assisti ao lançamento de mais um livro. Vivi um momento da história literária do mirandês. Uma história feita de traduções, de criação original, de investigação e de uma notável fidelidade à própria língua, que merece ser reconhecida muito para além do Planalto.
Terminada a sessão, fixei os olhos em “las cestas de Marcolino” que emolduram a Casa da Cultura Mirandesa: também os livros transportam alimento…
E bonda. Poucas homenagens são tão fecundas como as que acrescentam um clássico ao património vivo de uma língua.
*(Universidade Católica Portuguesa – Escola das Artes)
