Os tempos que decorrem
Permito-me incluir três textos em exergo (exploratórios):
Primeiro: «É um pequeno passo para [um] homem, um salto gigante para a Humanidade». – Neil Armstrong ao pisar na Lua em 20 de julho de 1969, missão Apollo 11.
Segundo: «Ser ignorante do passado é como ser uma criança para sempre». – Cícero, 106 a.C. - 43 a.C.
Terceiro: «O respeito pela Humanidade começa exatamente em cada um de nós. Sem o respeito pela individualidade e personalidade de cada ser humano, seja ele qual for, não há nada começado neste mundo.» – Almada Negreiros, Ensaios 1º Vol. p. 13.
Três ideias que apenas aparentemente não se interligam. Têm muito em comum. O astro-navegador parece enganar-se, na medida em que a Humanidade não tem caminhado no vero sentido de não aproveitarmos o que a tecnologia tem de extraordinário. Antes, se coloca, em boa parte, ao lado mais impuro e catastrófico: o da guerra, desta, sofisticada, cruel que envolve o mundo. Basta olhar para Gaza, Ucrânia, Líbano, Sudão, onde, além de tudo, há fome e doença. Quem manda são os drones e as bombas lançadas a milhares de quilómetros.
Ora, andamos a esquecer o passado, que lição nos dá e da qual nada colhemos, a não ser o exercício de força, ganância, violência e desrespeito pelos Direitos do Homem e pelo Direito Internacional. Cícero, filósofo romano, na obra De Re Publica, pretendeu defender a moralidade e a virtude como forma de contribuir para o equilíbrio entre os Homens. Nada aprendemos neste mundo ocidental que se julga a verdadeira e mais elevada civilização, como se as outras, de que recebemos tanto, nada valessem.
Quer o respeito pela dignidade individual e coletiva, quer a verdadeira humanidade apenas se podem construir no respeito pelo “Outro”, de forma plena. Temos de andar como Diógenes, filósofo da Antiga Grécia, à procura de um homem, de candeia acesa, de dia e pela rua. Eis uma forma de criticar o cinismo, a falta de integridade e a corrupção.
Ocorreram-me estas ideias ao ouvir, em plena Assembleia da República, a voz gritada, batida a compasso, martelada em gritaria, como se fosse possível, deste modo, clamar verdades. Sabemos todos que há um provérbio em latim que afirma “Vulnera non dantur ad mensuram”, ou seja, as ofensas não são dadas sob medida. A vida em comum não significa que viver é guerrear, é denegrir, é maltratar, é vilipendiar. Ou de obter apoios de pessoas de bem, que, iludidas, ouvem tais diatribes. Mesmo que se afirmem meias verdades, ou, o que é pior, se insinuem questões graves por provar, como as que foram dirigidas, insultuosamente, aos constituintes, que ousaram, com bravura, tenacidade e vontade de reerguer a identidade de um Povo. As comemorações devem servir para transmitir ideias e orientações para o futuro, assim lembrou, claramente, o Presidente da República. Pessoalmente, sigo a lição de Vitorino Magalhães Godinho em Comemorações e História (A descoberta da Guiné), Cadernos da Seara Nova, 1947, p.13: «…recuso-me a comungar num patriotismo, que do passado selecciona o que convém aos interesses
