Saúde, Ciência e Cidadania - I
Recentemente, José Mário Leite (JML), profissional ligado à prestigiada e filantrópica Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) trouxe aos leitores do MdB, com muita oportunidade, dois textos relacionando saúde, ciência e cidadania. Em “Respire fundo, agora tussa”, o autor aborda, de forma irónica, contudo realista, o sobreconsumo de meios complementares de diagnóstico, habitualmente prescritos pelos médicos. Veja-se, todavia: os investigadores da FCG criaram um sistema de “observação” do ar que expiramos, que permitirá detetar sintomas e mesmo situações patológicas. Em “Ciência Cidadã”, JML mostra o necessário envolvimento de autarquias e ciência, com a participação de vários munícipes, investigadores da FCG, da Universidade Nova, Faculdade de Medicina da Universidade Católica e Instituto de Tecnologia Clínica e Biológica, em encontro no município de Oeiras. Certo: a Sociedade avançará para uma “Saúde melhor para todos” (OMS), baseada na solidariedade e na confiança, nunca no obscurantismo e no negacionismo – dois males contrários à evolução da Ciência.
Recordo o teor dos textos de JML por três razões:
Primeira: na atual medicina, há uma tendência para a sobrevalorização do exame complementar de diagnóstico em detrimento da anamnese e do exame físico. Interroguemo-nos: que motivos estarão por trás desta situação? Entre muitos, exibo dois, prometendo voltar a este assunto: (i) a confrontação do médico perante a exigência dos doentes, que (re)clamam mais exames (!); (ii) a designada ‘medicina defensiva’ que leva os médicos a sustentar os diagnósticos em elementos complementares para não se exporem a demandas judiciais – o que é compreensível. Questiono: que medicina e que médicos pretendemos?
Segunda: as autarquias que estão mais afastadas dos centros de investigação e dos hospitais de nível terciário, deveriam promover encontros entre cidadãos e médicos com experiência, conhecimento e pedagogia, envolvendo escolas, associações de moradores, IPSS’s e outras entidades locais. Exemplo: atividades de informação aos seus munícipes sobre promoção da saúde e prevenção da doença – conceitos e práticas fundamentais para a melhoria da saúde individual e comunitária. A promoção é levada a cabo pelos organismos oficiais da Saúde; a prevenção faz-se na prática de alimentação e hábitos de vida saudáveis.
Terceira: a necessidade de olharmos, nós cidadãos, para os cuidados a ter com as perceções (palavra usada com uma loquacidade inusitada) que os políticos nos apresentam como se fossem realidades. Quero dizer: estamos submergidos pela imagem e pela narrativa mais do que pelos factos concretos. Explico: a informação correta e transparente beneficia a democracia. As perceções funcionam como atalhos mentais que ajudam os cidadãos a formar opiniões rápidas, apressadas, irrazoáveis, sobre temas complexos. Em Saúde, funciona bem: o excesso de informações variadas e contraditórias retira a atenção do que é essencial
Sobre o mundo das perceções, já Platão, da sua notável obra Teeteto (Edição da FCG, 2005, Pp. 273-277 – aliás, um saboroso diálogo entre Sócrates e Teeteto…), registo a pergunta que o “velho” sábio dirige ao jovem: «Aquele que opina sobre o que não sabe bem, é possível que opine coisas falsas, embora pense de outro modo?» Pergunto eu: somos capazes de distinguir opinião de conhecimento?
Paulo Cordeiro Salgado – 15.03.26
