A opinião de ...

Estamos a fazer as perguntas certas?

A sociedade de hoje pede-nos mudança na forma como ensinamos e aprendemos. Não basta dar respostas aos alunos, é preciso ajudá-los a descobrir perguntas, algumas delas mais profundas de sentido, pelas quais valha a pena procurar respostas.
Esta convicção foi-me deixada pelo Congresso Internacional sobre Pastoral Escolar e Universitária, realizado no Vaticano, no coração da Igreja, nos dias 22 e 23 de outubro, em que tive o privilégio de participar, numa reflexão sobre uma das responsabilidades mais exigentes do nosso tempo: educar pessoas, de forma integral, e não apenas preparar alunos para responder a testes.
Esta responsabilidade torna-se particularmente exigente quando percebemos que há estudantes que parecem ter perdido a vontade de aprender. Será desinteresse? Falta de sentido? Ou estaremos também, enquanto escola, a falhar na forma como despertamos e alimentamos o desejo de aprender?
Não tendo receitas nem respostas definitivas, sinto esta inquietação de quem ensina e sabe que a motivação não nasce por decreto. Talvez devamos escutar mais os alunos, compreender o que os preocupa e o que desperta a sua curiosidade, sem perder de vista que educar também exige esforço e rigor, desafiando-os a ir além daquilo que já sabem ou que lhes interessa.
Para isso precisamos também de reconhecer que nem todos partem das mesmas condições. O contexto familiar, as dificuldades de aprendizagem e o sentimento de pertença influenciam a relação com a escola, em percursos muitas vezes marcados por aprendizagens ocultas.
Entretanto, a inteligência artificial, os algoritmos e a hiperconectividade colocam respostas à distância de um clique. São recursos valiosos, desde que usados com critério. O problema começa quando confundimos obter informação com construir conhecimento. Como numa alimentação feita apenas de refeições rápidas, também o consumo imediato de conteúdos pode deixar-nos sem o tempo necessário para assimilar, relacionar e pensar.
Philippe Meirieu, lembra que “saber” e “aprender” não são sinónimos. Aprender exige aceitar a dúvida, experimentar, errar e voltar a tentar. Por sua vez, António Nóvoa recorda que “não há educação sem relação humana”. Estas duas ideias ajudam-nos a perceber que nenhuma tecnologia substitui a curiosidade de um aluno nem a presença de alguém que o escuta e acompanha.
No Congresso, esta preocupação encontrou eco na reflexão do Papa Leão XIV. Em Traçar Novos Mapas de Esperança e na encíclica Magnifica Humanitas, a educação aparece ligada à dignidade da pessoa, ao discernimento e ao encontro. O desafio não é rejeitar o digital, mas perguntar quando, como e para quê o utilizamos. Uma resposta instantânea não é necessariamente uma resposta que nos faça crescer.
Nesta perspetiva, o contributo da Educação Moral e Religiosa Católica poderá ser muito pertinente. Na EMRC, as perguntas não se esgotam na matéria de uma aula, envolvendo também outras, como Quem sou? O que me torna feliz? Para que vivo? Como reconheço a dignidade do outro? Que mundo ajudo a construir?. São questões que convidam à reflexão, ao pensamento crítico e à procura pessoal de sentido, em liberdade e com consciência. Uma pergunta sincera pode abrir caminho à escuta, ao encontro e à responsabilidade. Não se trata de impor respostas, mas de ajudar cada aluno a confrontar ideias, reconhecer valores e descobrir que a sua vida importa.
Esta tarefa educativa exige uma responsabilidade partilhada. Precisamos, por isso, de uma aliança educativa entre escola, famílias e comunidade. Precisamos de tempo para conversar, estudar, ler, questionar e descobrir. Os professores não podem assumir sozinhos uma tarefa que diz respeito a todos.
O futuro da educação não depende apenas das respostas que soubermos dar, mas das perguntas que conseguirmos despertar.

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