A opinião de ...

Assimetrias e perda de serviços públicos

Há situações que, por mais voltas que se dê à cabeça, não há forma de fazerem sentido. Algo que, com determinadas decisões políticas, não fazem sentido.
Cada serviço retirado ao Interior é apresentado como uma reorganização. Cada concentração no litoral ou numa capital regional surge embrulhada em palavras como “eficiência”, “modernização” ou “racionalização”. O problema é que, para quem vive no Nordeste Transmontano, essas palavras traduzem-se quase sempre na mesma realidade: percorrer mais quilómetros, esperar mais tempo e receber menos do Estado.
O debate em torno das duas ambulâncias de Suporte Imediato de Vida de Mirandela e Mogadouro é o exemplo mais recente.
A transformação destes meios em veículos ligeiros pode conservar as equipas diferenciadas, mas retira-lhes a capacidade de transportar os doentes. Onde antes se deslocava uma ambulância, capaz de chegar ao local, estabilizar a vítima e transportá-la até ao hospital, passarão a ser necessárias duas viaturas: uma para levar a equipa e outra para assegurar o transporte.
O INEM garante que não haverá perda da capacidade assistencial, argumentando que os veículos ligeiros serão mais rápidos e permitirão às equipas regressar mais depressa à atividade. O transporte ficará a cargo de outra ambulância do Sistema Integrado de Emergência Médica. É essa a versão oficial da reorganização em curso. O Governo rejeita que exista uma retirada de meios e apresenta a alteração como uma modernização do sistema.
A explicação pode funcionar no papel. No território, porém, permanece uma questão elementar: onde está essa segunda ambulância, quanto tempo demora a chegar e que população ficará sem resposta enquanto estiver ocupada naquele transporte?
No distrito de Bragança, as distâncias são parte do problema e não um pormenor do googlemaps. Uma ocorrência numa aldeia afastada pode obrigar a percorrer dezenas de quilómetros até ao meio de socorro mais próximo e muitos mais até ao hospital. Aqui, retirar a capacidade de transporte a uma SIV não é uma simples mudança de carroçaria. É introduzir mais uma etapa, mais uma dependência e uma nova possibilidade de atraso numa cadeia em que cada minuto pode decidir uma vida.
O presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, o moncorvense Rui Lázaro, resumiu a questão de forma certeira:
“A retórica, que é a técnica de construir um discurso eficaz, pode ser um instrumento útil a este Governo. Mas a matemática continua a ser uma ciência exata. E menos ambulâncias é mesmo pior.”
As populações diretamente afetadas serão as de Mirandela e Mogadouro, mas o problema diz respeito a todos os transmontanos. As ambulâncias não conhecem fronteiras municipais quando são chamadas a responder a uma emergência. Num território vasto, envelhecido e disperso, qualquer redução ou condicionamento de um meio repercute-se em toda a rede.
Esta não é, por isso, uma disputa semântica sobre se as ambulâncias “desaparecem” ou apenas “mudam de função”. É uma discussão sobre o grau de proteção que o Estado está disposto a assegurar aos cidadãos que vivem longe dos grandes centros.
E um país que abandona as suas margens acaba, inevitavelmente, por perder o centro.

Edição
4099

Oferta para Assinantes

Cartão Moeve