A opinião de ...

Antígona perante o algoritmo

A inteligência artificial já calcula, prevê, classifica e recomenda com uma rapidez muito superior à humana. Mas há uma pergunta que continua em aberto: poderá uma máquina reconhecer que uma ordem, embora legal, é injusta?

É aqui que uma tragédia escrita há quase 2.500 anos se torna surpreendentemente atual. Em Antígona, Sófocles confronta duas formas de entender a justiça. Creonte representa a autoridade, a ordem e a aplicação da lei. Antígona representa a consciência que recusa obedecer quando considera que uma regra viola princípios superiores.

Visto de forma estritamente administrativa, Creonte é coerente. Existe uma norma, uma infração e uma sanção. Um algoritmo poderia aplicar essa lógica com enorme eficiência. Identificaria a regra, verificaria o comportamento e produziria uma decisão. O problema é que consistência não significa justiça.

A inteligência artificial pode reproduzir argumentos morais, comparar normas e até prever consequências. Mas não ama, não sofre, não teme, não se arrepende e não assume responsabilidade moral. Pode recomendar uma decisão, mas não pode responder por ela como responde uma pessoa, uma instituição ou um governante.

O risco não é apenas termos máquinas cada vez mais inteligentes. É começarmos a esconder decisões humanas atrás de sistemas algorítmicos. Quando algo corre mal, torna-se tentador dizer que “foi o algoritmo”. Mas alguém escolheu os dados, definiu os objetivos, estabeleceu os critérios e decidiu que margem de erro era aceitável.
Por isso, a inteligência artificial não diminui a responsabilidade humana. Aumenta-a.

Antígona também nos ensina outra coisa. A solução não está em substituir uma autoridade rígida por outra convicção igualmente absoluta. Hémon e Tirésias mostram a Creonte a importância de ouvir, rever e corrigir. Governar bem exige prudência, pluralidade e capacidade de reconhecer o erro antes que seja demasiado tarde.
É esta a lição central para o futuro da inteligência artificial. Precisamos de transparência, supervisão humana, mecanismos de recurso e participação social nas decisões tecnológicas. À máquina pode caber o cálculo. Ao ser humano deve continuar a caber a decisão e a responsabilidade.

Talvez a grande questão do futuro não seja saber se as máquinas terão consciência. É saber se os seres humanos conservarão a sua.
O verdadeiro perigo não será a máquina tornar-se demasiado humana. Será o ser humano aceitar tornar-se demasiado algorítmico.

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