A opinião de ...

Rogério Rodrigues

Ainda não eram as duas da madruga quando o telemóvel tocou a anunciar a má nova. O Rogério morreu. O nosso comum amigo, o Alexandre Manuel, também veterano do jornalismo e professor no ISCTE audivelmente contristado deu-me pormenores acerca do passamento Rogério exímio repórter, jornalista íntegro até à medula, nosso companheiro de décadas, sempre atento, nas horas boas e, sobretudo nas horas más.
Que dizer mais? Noutros jornais a sua qualidade de notável profissional, de intemerato no que tange ao aprofundamento das causas e investigações que escolhia ou lhe cabiam, o seu apego à exaltação da língua portuguesa não se coibindo de zurzir nos adeptos de escreverem chocho, conforme falam atabalhoadamente, bem como gritar se fosse caso disso o orgulho em ser transmontano, tudo isto mereceu saliência, por isso resta-me trazer duas ou três evocações de carácter pessoal reveladoras do seu peculiar sentido de estar na vida, infelizmente, bem curta.
O Rogério fazia parte de um quarteto não de cordas, sim amigo de boas pitanças, bebidas em conformidade, detonadoras de prolongadas e bem apaladadas conversas, fossem onde fossem, desde que os acima referidos pressupostos estivessem assegurados. O quarteto – Assis Pacheco, José Cardoso Pires, Afonso Praça e Rogério, eram temíveis no tom, no som, na fúria defensora da liberdade de expressão, na crítica aos pavões das letras e das artes, mordazes no esmiuçar jocoso dos dislates praticados por enfatuados e pedantes fosse nas redacções de jornais, revistas e televisões, fosse na condição de prosadores e poetas, fosse ainda burocratas da cultura engravatados, com borboletas no pescoço, ou em mangas de camisa.
O Assis era requintado na escolha de vinhos (adorava os caldos Veja Sicília), o Praça gostava de fumeiro transmontano e enquanto os apreciava desencantava episódios de folguedos no Felgar, acrescentando o estupor causado no Liceu de Bragança ao tirar 20 a latim no exame de sétimo ano, o José Cardoso Pires falava da sopa de feijão e de uísques escoceses nunca dantes mencionados nas bandas de Lisboa, o Rogério deleitava os circunstantes a referir «estórias» da história do Partido Comunista. Os quatro conseguiram sem grande esforço o estatuto de personalidades perigosas em virtude a sua cultura e mau feitio. Durante um pequeno-almoço na Estalagem do Fundão, Mestre Zé Cardoso Pires lembrou velha polémica ao ver passar o antagonista escritor e nada ficou por dizer, restando ao incauto sair a falar baixinho. Com ele próprio.
Na sequência do resultado obtido pelo PRD amiúde trocávamos impressões, amenidades e em determinada altura confidenciei-lhe a insatisfação do Dr. Magalhães Mota ante o desempenho de dois elementos da direcção do grupo parlamentar. O Rogério manifestou completa disponibilidade para o que fosse necessário. E foi.

No dia do fecho do semanário que acontecia por volta da meia-noite realizou-se no Grupo Parlamentar do PRD eleições destinadas a substituir dois elementos da direcção. Assim aconteceu, O caso resolveu-se madrugada fora. O jornal trazia a notícia e informa o resultado da votação. O director do jornal era o também deputado pelo PRD o jornalista José Carlos Vasconcelos, por isso mesmo ficou espantado ante o lido no dia seguinte. O Rogério não lhe explicou o feito, o Dr. Magalhães Mota respondeu-lhe sem responder, o mistério permaneceu. Peripécias deste género a efeito, de outros teores também. O Rogério foi sempre solidário daí testemunhar em abono de quem merecia. Uma dessas vezes aconteceu no Tribunal de Santarém, a favor do Dr. Aires Ferreira, então Presidente da Câmara de Moncorvo, falecido tragicamente.
Ele detestava os donos de canetas de luxo, de ouro, que as utilizavam escrevendo com os pés, assinalava-lhe os erros, muitas vezes não se coibia de comentar as asneiras em voz alta, seria surpresa não ter acumulado rancores e invejas dado o bom clamor público de inúmeros trabalhos de investigação conduzido com afinco e seriedade. Um Senhor Jornalista, de ontem, de hoje, de amanhã.
Não tinha ilusões acerca da venalidade do tempo, não sei se a Autarquia moncorvense intenção de o assinalar de maneira a ficar perene em termos de memória. Se o fizer é um justo gesto de gratidão.
E, agora deixem-me chorar e reler Pedro Castelhano.

Edição
3752