Diocese

Mosteiro Trapista de Palaçoulo elevado a priorado simples fica mais autónomo

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 04/02/2026 - 10:32

Dez anos depois do início da ideia, o Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja, que nasceu em Palaçoulo, no concelho de Miranda do Douro, deu um passo rumo à autonomização, ao ser erigido como priorado simples. Trata-se de uma etapa rumo ao estatuto de abadia, que pressupõe a autonomização completa rumo ao mosteiro italiano de Vittorchiano, do qual vieram as monjas fundadoras para o Planalto Mirandês.

"Este Mosteiro, para a diocese, é uma espécie de sinal que Deus nos dá de que continua a agir na História. Está aqui, no cimo do monte, a apontar-nos para o alto e a convidar-nos ao encontro com Deus.

Esta passagem vem confirmar que está aqui um dedo Dele. O facto de haver vocações portuguesas em tão pouco tempo tornou esta autonomia possível", sublinhou o bispo de Bragança-Miranda, D. Nuno Almeida.

O prelado presidiu à eucaristia, na semana passada, no dia da solenidade da Senhora da Anunciação (25 de março), em que nove monjas fizeram o seu compromisso com o Mosteiro de Palaçoulo.

Também o Pe. António Pires, pároco de Palaçoulo e capelão do Mosteiro desde 2020, sublinha a importância deste momento para a própria região.
"É uma importância grande porque é mais um degrau no crescimento da própria comunidade, que se está a consolidar. Está a viver com esperança de que aumente e que no futuro se torne uma Abadia. É um outro sinal profético e dá esperança", disse o sacerdote.

Nesta celebração participou, também, o Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, antigo bispo de Bragança-Miranda.

Na sua homilia, D. José Cordeiro comparou a solenidade da Anunciação do Senhor a "um raio de luz no deserto teológico quaresmal para nos fazer refletir, mais uma vez, sobre o mistério imenso do Deus que se faz homem para nossa salvação". 

"O autor do livro do Deuteronómio coloca Moisés a perguntar ao povo hebreu: «que grande nação tem um deus tão próximo de si como o Senhor, o nosso Deus, está próximo de nós sempre que o invocamos?». Esta passagem já revela a singularidade do nosso Deus: um Deus que escolhe um povo para si, para que este povo seja fermento, pelo seu modo de vida, para todos os outros povos.

Mas na Encarnação do Verbo, Deus dá um passo mais: Deus não está apenas próximo de nós; Ele está no meio de nós, Ele faz-se um de nós. 
Esse acontecimento é anunciado a Maria, escolhida para mãe do Messias, e celebrar a Anunciação é celebrar um Deus que quer entrar na história humana, mas que não o faz de forma espetacular, porque escolhe uma jovem de uma pequena cidade, falando com ela na simplicidade de uma casa e no quotidiano de uma vida, nem de forma mágica, porque Deus não aparece do nada; antes escolhe nascer, crescer e aprender a viver, tal como aconteceu com qualquer um de nós. Torna-se em tudo igual a nós, exceto no pecado", disse.

O Arcebispo de Braga acrescentou ainda que "o nosso Deus convive bem com tudo aquilo que é humano, quer sejam as nossas capacidades, quer sejam as nossas fragilidades, porque não as evitou, convivendo até com a nossa dúvida, tal como aconteceu com Maria, «como será isto, se eu não conheço homem?», dando-nos tempo para aprendermos a confiar e podermos dizer “faça-se em mim segundo a tua palavra”." 

"A atitude de Maria faz dela o exemplo do discípulo: Ela aceita deixar de lado os seus planos, sair da rotina, deixar aquilo que é seguro, para se abrir àquilo que Deus tem pensado para Ela. 

Há um provérbio popular que sabiamente diz: «se queres fazer rir Deus, conta-lhe os teus planos». Deixar-se guiar por Deus, abandonar-se aos seus planos e confiar, é aquilo que Maria nos ensina e que somos convidados a imitar. Por vezes, não percebemos bem onde Deus nos chama; noutras ocasiões, o que Ele pede pode parecer imenso. Contudo, em nenhum momento Ele nos deixa desamparados", frisou D. José Cordeiro.

A terminar, o antigo bispo de Bragança-Miranda sublinhou que "sem o silêncio não há realização plena".

"A presença mariana mostra-se aqui no esperançoso Mosteiro Trapista de Santa Maria, Mãe da Igreja. Há dez anos que começo este “sonho de Deus”, com uma peregrinação da querida Diocese de Bragança-Mirada a Roma, por ocasião do Ano Santo da Misericórdia e com uma ida ao Mosteiro de Vitorchiano.

Na conclusão da anunciação a Maria, o mensageiro celeste retira-se em silêncio. Este silêncio é futurante em Maria para toda a humanidade, como escreveu o P. David Maria Turoldo: «Como podemos cantar-Te, ó Mãe, sem perturbar a tua santidade, sem ofender o teu silêncio? (...) Eu acredito que o ser humano não pode realizar-se plenamente sem o silêncio e a oração». Então, podemos dizer que o mosteiro de Santa Maria, Mãe da Igreja, de Palaçoulo é uma “catedral do silêncio”

O silêncio contemplativo é criativo e sinal grande de sabedoria: «quem por ela madruga não terá grande trabalho, pois encontrá-la-á junto à porta da sua casa» (Sb 6, 14). De facto, como transmitiu um Monge trapista: «que mais procuro senão este silêncio, esta simplicidade, este viver juntamente com a sabedoria?» (Thomas Merton).

Neste lugar único aprende-se a Páscoa, celebrando e mostrando os mistérios de Jesus Cristo, nossa Páscoa e nossa Paz. Aqui é um oásis de silêncio. De facto, experimentamos um silêncio ativo, orante, humilde e futurante.

Não sejamos escravos do urgente, mas servidores criativos da prioridade de Deus em cada dia", concluiu.

Ao Mensageiro, o Pe. António Pires sublinha que "o Mosteiro abriu há cinco anos" pelo que "é algo de extraordinário o que está a acontecer aqui, para a Igreja Diocesana e para a Igreja portuguesa".  

De acordo com o sacerdote, "tem momentos completamente lotados". Há casais, grupos de jovens, vem gente de Espanha... passam muitas pessoas aqui pelo Mosteiro", frisou.

A nível de edificado, está neste momento a ser tratado o processo de construção de um cemitério próprio.

Atualmente, nove monjas fundadoras fizeram o voto de estabilidade.

Para além das fundadoras, estão no mosteiro mais oito portuguesas e uma cabo-verdiana. 

"Quatro delas são noviças e quatro jovens que já estão no mosteiro estão a caminho do noviciado, assim como uma outra que irá entrar", explicou o Pe. António Pires.

"Os sinais vocacionais são importantes para se dar este passo. Há sinais muito promissores, em tão pouco tempo", concluiu o sacerdote.

O Mosteiro Trapista Santa Maria Mãe da Igreja, em Palaçoulo, concelho de Miranda do Douro, pertence à Ordem Cisterciense da Estrita Observância, e foi fundado, em 2019, por dez monjas do Mosteiro de Vittorchiano, (Itália).

O mosteiro e a hospedaria da comunidade religiosa foram inaugurados no dia 23 de outubro de 2024, após começar a ser idealizado em 2016.

Foto: Francisco Pinto

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