Anestesia na sacristia ditadura dos clientes de altar de gesso
Vivemos na era do analgésico. Se nos dói a cabeça, tomamos paracetamol, se a alma pesa, recorremos à “espiritualidade paliativa”. Como utentes do mercado existencial, promovemos uma autêntica anestesia na sacristia, convertendo o Evangelho num produto de bem-estar, zero calorias e sem conversão profunda.
Exigimos sacramentos e o padrinho em regime de “refeição pronta a levar”, sem certidões, ou catequeses. Criamos itinerários catequéticos instantâneos, imunes à missa, à comunidade, ou ao compromisso social, salvaguardando o diploma e a fotografia final. É a ditadura dos clientes de altar de gesso, se alguém ousa atravessar-se no caminho, é imolado no fogo das redes digitais, fazendo tremer hierarquias.
Esta fé opera como urgência hospitalar, só se recorre a ela na crise. Deus deixa de ser o Senhor da história para ser um paramédico de prevenção do luto. O Santíssimo Sacramento é reduzido a um mero relaxamento com incenso, um anestésico para a ansiedade de segunda-feira.
Não faltam avisos. C.S. Lewis, em “Cartas do Diabo ao seu Aprendiz”, criticava a fé encarada “como tratamento médico... que encare Deus apenas como um curandeiro”. Queremos o Doutor, mas rejeitamos o Senhor. Também Dietrich Bonhoeffer, em “O Preço do Discipulado”, definia a “graça barata” como “a graça sem discipulado, sem a cruz, sem Jesus Cristo vivo”. É o saldo onde se compra o perdão sem arrependimento.
Na exortação “GE - Gaudete et Exsultate”, o Papa Francisco critica as «falsas espiritualidades sem encontro com Deus que reinam no mercado religioso» (GE 111). Em contrapartida, avisa a navegação e as respetivas alfândegas, se tudo depende de «normas e estruturas», acabamos por «complicar o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema» (GE 59). O Papa, citando São Tomás, lembra que os preceitos se devem exigir com moderação, «para não tornar a vida pesada aos fiéis».
Assim, a pastoral requer humor, prelúdio do homem redimido. Como converter um cliente, «com a alegria tatuada no rosto», se ele quer apenas a graça e não lhe queremos fechar a porta com um regulamento estéril? Desenganem-se os devotos de São «Clique», o Evangelho não é uma estância termal. A resposta exige regulamentação adequada que, sob o Cânone 843 § 1.º, do Código de Direito Canónico, garanta a formação para receber os sacramentos. Oferecer facilidades, ou rigores fiscais, em vez de Cristo, acumulam-se diplomas e esvaziam-se igrejas. A fé desinstala porque exige conversão.
Isto porque acredito no Amor que Salva. Com o otimismo lírico de Pedro Abrunhosa, repito: “ainda há fogo dentro,/ ainda há frutos sem veneno,/ ainda há luz na estrada./ Podes subir à porta do templo/ que o amor nos salve”.
