Bragança

Espiritualidade deve integrar cuidados de saúde e paliativos, defendem especialistas

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 06/11/2026 - 11:00

A espiritualidade deve ser assumida como uma dimensão essencial dos cuidados de saúde, em particular dos cuidados paliativos, defenderam os participantes no primeiro Congresso Internacional de Espiritualidade, que decorreu na sexta-feira e no sábado, em Bragança.

A iniciativa reuniu cerca de 200 profissionais e especialistas de diferentes pontos do país, num encontro dedicado à reflexão sobre a condição humana, a finitude, a humanização dos cuidados e a necessidade de atender às dimensões física, psicológica, social e espiritual dos doentes.

O bispo de Bragança-Miranda, D. Nuno Almeida, considerou que o congresso teve a coragem de colocar, “de uma forma muito explícita”, a espiritualidade no centro dos cuidados de saúde e, concretamente, dos cuidados paliativos.

“Não é preciso, nem se pode, esquecer a dimensão científica e tecnológica da saúde, mas nunca pode faltar a dimensão espiritual, isto é, a busca de sentido”, afirmou.

Segundo o prelado, os profissionais devem continuar a “compreender, estudar, medir, avaliar e corrigir”, mas sem esquecer que a pessoa humana possui dimensões que ultrapassam o plano físico.

“Há uma história, há toda uma dimensão afetiva e há, sobretudo, esta dimensão de sentir o outro”, explicou D. Nuno Almeida, destacando a importância desta abordagem quando se fala de finitude e de cuidados paliativos.

Para o bispo, de Bragança-miranda, abordar a espiritualidade no contexto clínico significa abrir “uma luz nova, mas muito mais profunda” sobre a saúde, com consequências diretas na humanização dos cuidados prestados diariamente.

O Pe. Sérgio Pêra, capelão e assistente espiritual na Unidade de Cuidados Paliativos do hospital de Macedo de Cavaleiros, explicou que os profissionais de saúde não tratam apenas uma dor física, devendo considerar aquilo que Cicely Saunders, pioneira dos cuidados paliativos modernos, definiu como “dor total”.

Essa dor compreende, segundo o sacerdote, as dimensões física, psicológica, social e espiritual, exigindo uma visão integral da pessoa.
“Quando se trata um doente, não se trata simplesmente uma dor física. É necessário ter em conta a dor total”, afirmou, defendendo que o cuidado espiritual contribui para “um maior e melhor bem-estar da pessoa enferma”.

O Pe. érgio Pêra relatou que a sua presença junto das equipas clínicas, durante um estágio realizado no âmbito do mestrado em cuidados paliativos, ajudou a desmistificar alguns preconceitos relacionados com a assistência espiritual.

“O facto de acompanhar as equipas proporcionou também um desejo de que eu estivesse ainda mais presente”, revelou.

Segundo o sacerdote, quando este acompanhamento é feito atempadamente e com conhecimento da história do doente, verifica-se um maior bem-estar e uma crescente procura por momentos de diálogo e partilha.

Há pessoas, acrescentou, “que necessitam de abordar inquietações ou assuntos pendentes numa fase delicada da vida, procurando alguém com quem tenham estabelecido uma relação de confiança”.

A ideia de organizar este encontro partiu do próprio Pe. Sérgio Pêra, que apresentou a proposta a Liseta Gonçalves, diretora do Serviço da Unidade de Cuidados Paliativos de Macedo de Cavaleiros.

O projeto foi posteriormente desenvolvido com Ana Querido, coordenadora do mestrado em cuidados paliativos do Instituto Politécnico de Leiria, que lhe conferiu uma dimensão científica mais abrangente.

Ao congresso associaram-se também o Instituto Politécnico de Bragança, a Unidade Local de Saúde do Nordeste, o Instituto Politécnico de Leiria e a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos.

“Eu tive a ideia, mas depois foram muitas as pessoas que contribuíram para o enriquecimento deste congresso”, reconheceu o sacerdote, sublinhando que a adesão superou as expectativas iniciais.

“Humanizar os cuidados” 

 

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