A opinião de ...

Educação (2): O lado negro da escola – a fábrica de crimes contra a humanidade

Analisar a Escola como Organização é tão motivador como surpreendente. Descobrimos nela facetas que julgaríamos impossíveis sem um estudo aprofundado e labiríntico, face às maravilhas que os amantes distraídos nos contam sobre ela. A Escola tem muitos lados ou facetas ou dimensões, na linguagem dos avaliadores. Nela encontramos tudo, desde a poesia mais bela aos horrores do desprezo humano total. Só não encontrei nela o assassinato físico (graças a Deus). Mas convém que mantenhamos esta ficção da Escola como o lugar projectivo da grandeza e do amor pelo nosso futuro.
Karl Weick e Ralph Tyler forneceram-nos uma chave de leitura da Escola como lugar dos múltiplos possíveis, um campo de futebol onde há balizas em todo o lado e onde os jogadores podem gritar golo quando quiserem. Em teoria, esta será a escola ideal mas a organização, a ordem, a disciplina, o rigor, a ciência, a medição impõem regras que limitam, manietam e castram grande parte da criatividade que jorra da infância e da adolescência.
«O lado negro da escola – a fábrica de crimes contra a humanidade» é apenas uma das 84 facetas/dimensões que, nas minhas investigações, encontrei na análise da Escola como Organização. Esta faceta exprime a ignorância, o desprezo, a falta de consideração, o pouco cuidado na avaliação, a falta de atenção que uma boa parte dos professores manifesta para com os alunos mais pobres e/ou menos desenvolvidos e ainda com os alunos que falam pior, que vestem pior, que têm comportamentos menos ortodoxos, aspectos que manifestam confrangedoramente a adesão de uma grande parte dos professores ao conceito de «cliente ideal» que Howard Becker nos ensinou.
Estes desprezo e falta de consideração são percebidos e captados pelas crianças/alunos e interiorizados como fazendo parte da sua inferioridade face aos outros e, como nos ensinaram João Lopes e Mark Rutherford, vão construindo os défices de auto-estima, de capacidade emocional e de interacção social que muitas/crianças/alunos manifestam, até ao sentimento de incapacidade e de abandono da escola por parte de muitos deles.
Os alunos cujos pais percebem como funciona a escola e estão atentos aos filhos, conseguem, a maior parte das vezes, colmatar as deficiências da Escola, quanto mais não seja, através de explicações, mas, num cada vez maior número de casos, não o conseguem porque já não têm tempo, não conseguem ou não sabem e, alguns, não se interessam. Estamos portanto como em 1950, quando todas estas descobertas sobre a Escola começaram a emergir.
Os casos que nos vão chegando sobre o insucesso escolar dos alunos mais pobres e filhos de pais menos formados academicamente, a par dessa terrível estigmatização dos alunos em alunos com necessidades educativas especiais (15% em muitas escolas de Portugal quando a OMS estabelece 3 % a 5%) são terríveis indicadores de uma «matança» proporcionada pela falta de preparação educacional e científica dos professores e que vai comprometendo o futuro pelo abaixamento da exigência e do rigor e pela perda dos valores da cidadania. Ao défice da qualidade responde-se com o derrame das credenciais.

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4109

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