A opinião de ...

Do tempo longo

Há dois anos, por estes dias, subi a Bragança para me despedir de Hirondino Fernandes. À saída da igreja da Misericórdia, quando o carro funerário começou lentamente a afastar-se, olhei em redor e pensei: Tão poucos.
Estava enganado. Os funerais pertencem ao tempo breve da despedida. As obras pertencem ao tempo longo.
Conheci primeiro a obra de Hirondino Fernandes e só bastante mais tarde o homem. Como aconteceu a tantos outros, cheguei a ele através da “Bibliografia do Distrito de Bragança”. Durante anos consultei aqueles volumes sem pensar muito na pessoa que lhes dera origem. Procurava uma referência, encontrava outra; seguia uma pista e descobria um caminho inesperado. Aquela bibliografia fazia o que as grandes bibliografias fazem: não encerrava a investigação, iluminava-a e abria-a em múltiplas direções.
Quando finalmente nos conhecemos, em novembro de 2015, a surpresa não esteve na dimensão da obra – essa conhecia-a já –, mas na naturalidade de quem a construíra. Hirondino Fernandes falava dos livros como se falasse de pessoas. Melhor: falava das pessoas antes de falar dos livros. Bastava mencionar um título para surgir a memória de um bibliotecário, de um amigo, de alguém que lhe indicara uma fonte ou lhe abrira um arquivo. A gratidão não era nele um exercício de cortesia. Era um traço de carácter e um modo de compreender o conhecimento.
Durante muito tempo pensei que a “Bibliografia do Distrito de Bragança” explicava Hirondino Fernandes. Hoje creio que era ele quem explicava a bibliografia. A paciência, o rigor, a fidelidade aos factos e, sobretudo, a convicção de que nenhum trabalho verdadeiramente importante se faz sozinho estavam já presentes no homem antes de passarem para os livros.
Hirondino Fernandes amava profundamente a terra onde nascera. Conhecia-lhe a história, a língua, os escritores, os jornais, os artistas esquecidos e as vozes que a história facilmente deixaria cair no silêncio. Sem alarde, foi construindo um dos mais sólidos alicerces da cultura transmontana.
“Tão poucos”, pensava eu.
Hoje sorrio perante esse pensamento, porque sei que media uma vida pela presença dos vivos, quando a vida de Hirondino Fernandes já começara a medir-se de outra maneira.
Talvez nunca saibamos verdadeiramente quantas vidas cabem dentro de uma vida. Contamos os anos, registamos cargos, enumeramos livros, distinguimos prémios e homenagens. Mas há uma contabilidade mais funda, inacessível às estatísticas e aos currículos. Quantas vocações despertou uma conversa? Quantos investigadores encontraram um caminho porque alguém lhes preparou o mapa? Quantos livros nasceram de um outro livro? Quantas horas de trabalho foram poupadas pela paciência de um homem que passou décadas a organizar, verificar, corrigir e recomeçar? Não sabemos. Nunca o saberemos.
Hirondino Fernandes pertenceu àquela rara categoria de homens que tornam os outros maiores sem fazerem questão de figurar ao lado deles. A cultura conhece bem estas figuras discretas. São elas que mantêm abertas as bibliotecas, organizam os arquivos, preservam documentos, estabelecem bibliografias e salvam da dispersão aquilo que o tempo facilmente destruiria.
Há obras que deixam memória. Outras continuam silenciosamente a produzir futuro.
Naqueles dias de setembro de 2024 julguei despedir-me de Hirondino Fernandes. Hoje sei que estava apenas a entrar no tempo longo da memória.

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4105

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