A opinião de ...

Acompanhar obras, esclarecer e acompanhar as pessoas

“Sr. Eng. Eng. António”… endereçavam-me assim uma correspondência na semana passada e, dizia-me com muita graça a Sr.ª D.ª Gina, na sacristia: “o Sr. Padre deve ser arquiteto”… - Olhe que não! Dizia eu… Presumo que este bom humor seja motivado pela quantidade de artigos, “obras na igreja”. São estas e, tantas outras, apreciações divertidas, que me tem motivado para chegar até aqui. Não se aflijam as respetivas Ordens Profissionais, pois apesar de ser leitor, apreciador do trabalho criativo, da habilidade com que estes profissionais trabalham a forma, a organização do espaço, o cálculo, desejo sobretudo e apenas fazer uma catequese através do espaço sacro. Concordo com o arquiteto brasileiro Oscar Niemayer [1907-2012], quando diz que “o mais importante não é a arquitetura, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar”.
Desde que me conheço tenho vindo semanalmente à igreja, primeiro com os meus pais e, depois pelos meus próprios pés. Na igreja cresci na vida e na vocação, por aqui ganhei uma afeição particular pela comunidade, pelo espaço sagrado, onde tanta gente deixou o que tinha de melhor. Não é de admirar que a igreja me fale tanto e, eu dela com tanto agrado.
O paisagista Roberto Burle Marx [1909-1994] que planificou muitos jardins no Brasil, seu país natal, desde muito pequeno cuidava, plantava, com a mãe o seu jardim, despertando assim o amor pelas plantas. Ele dizia que «sem se compreender as necessidades de uma cidade e, principalmente sem compreender as funções das áreas verdes, o paisagista não poderá realizar jardins». Assim, também o Padre que não conheça bem as necessidades de uma igreja, das pessoas, as funções dos objetos, das peças, dos espaços, não poderá acompanhar bem as obras e, tão pouco esclarecer melhor as pessoas.
Acompanhei muitas obras, faço-o ainda com muito prazer e, faço minhas as palavras de Zaha Mohammad Hadid [1950- 2016], arquiteta iraniana: «acredito que as coisas podem ser feitas de outra maneira e que vale a pena tentar». Ela diz também que não acredita que se possa ensinar arquitetura, só se pode inspirar aos outros. Oxalá pudesse eu inspirar, chamar à atenção para a conservação e valorização do património, com estes pequenos artigos, mais ou menos, semanais.

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