O efeito Boomerang
Uma das primeiras lições que se aprende, ao dar os primeiros passos na política passa por saber reconhecer que, neste ambiente, o que parece é! Começou por ser ensinada como um aviso para que, para além das evidências, quem pretende fazer carreira nesta área, teria de ter, igualmente, muita atenção com as aparências. Porém, com o decorrer dos tempos e com os avanços da ciência política e dos seus efeitos práticos, esta teoria evoluiu e, sobretudo, com a ascensão dos populismos, começou a ser apelativa enquanto fábrica de cenários construídos artificialmente para serem apresentados aos eleitores, como realidade. Ou, pelo menos, fazer sobrepor a fachada sobre todo o resto do edifício social. Foi isto que, no meu entendimento, Luís Montenegro, seguramente assessorado pelos gurus do marketing político que orbitam o PSD e o Governo, quis atingir quando fez a sua, já célebre, declaração sobre as suas férias. E, fruto disso, querendo fazer um aproveitamento aumentado da realidade, expôs-se, naturalmente, à exploração do mesmo facto, pelos seus adversários.
Quando Montenegro afirmou que não iria gozar férias… exceto em alguns dias e fins de semana, quis, obviamente colocar a ênfase na primeira parte da frase. Foi isso que passou para a opinião pública… porque foi exatamente isso que ele quis que passasse: este ano o Primeiro Ministro não ia tirar férias. A exceção subsequente era apenas um apêndice, para precaver, precisamente os dias que, estando, obviamente, já programados, se retiraria a banhos no inevitável teatro veraneio algarvio. Podia ter dito a mesma coisa, de outra forma: “Este ano vou encurtar as minhas férias e tirar alguns fins de semana para descanso (merecido – apontamento meu) da atividade governativa”. Era a mesma coisa, mas a perceção seria diferente e, aí sim, daria toda a razão ao seu líder parlamentar para protestar pelo “aproveitamento” feito pelo líder da oposição José Luís Carneiro, quando veio evidenciar a contradição entre a jura de não ir de férias e o facto de se fazer fotografar na praia em modo descontraído. Hugo Soares acusou o secretário Geral do PS de mentir… o que, curiosamente, pode ser e não ser verdade, ao mesmo tempo.
Vejamos:
É verdade que Luis Montenegro disse que não ia de férias… e foi. Logo, José Luís Carneiro tinha razão. Mas também disse que poderia, excecionalmente, usar alguns dias de semana com tal objetivo, coisa que o seu opositor, oportunisticamente, omitiu, porque lhe interessava que o foco ficasse na primeira metade da frase… tal como o Primeiro Ministro quis… embora com o objetivo oposto.
Assim sendo, não tem de que se queixar. Quando a necessidade aperta, cada um puxa, como pode, a brasa à sua sardinha. Sendo que, dadas as circunstâncias, o enviesamento é mais criticável no chefe do governo, não só porque reside nele a origem das desfocagem como porque, havendo um desequilíbrio natural na captação da atenção dos cidadãos entre quem está no poder e quem não está, nas atuais circunstâncias, é perfeitamente natural que o líder socialista aproveite todas as oportunidades para capitalizar a opinião pública pois, não só a disputa ao Primeiro Ministro, como igualmente, ao extremismo populista de um partido recordista em mascarar a realidade com cenários virtuais e sem adesão à realidade como é, regularmente, evidenciado por todos os programas de verificação de factos, genericamente conhecidos como polígrafos.
