A opinião de ...

O Cónego que Preferiu o “Nós”

Sem ruído, sem palco, sem reivindicação, sem o verniz useiro de certos clérigos. Assim recordo Aníbal João Folgado (1926-2010), o cónego Aníbal Folgado, nos finais da década de oitenta e nos primeiros anos da década seguinte. Para mim, foi um tempo alegre e feliz, como se tudo fosse intemporal e possível. Quase me convenço de que sou capaz de o descrever com pormenor forense. Digo quase, porque hoje, tenho a certeza de cada vez menos coisas.
Além do mais, desconfio das memórias demasiado nítidas, porque sei que a memória é território incerto, viagem obscura e interminável, meio verdade, meio ficção, como um filme íntimo em que aquele que recorda é simultaneamente espectador, realizador e protagonista. A memória avança e recua, detém-se em pormenores mínimos, apaga contornos, corta episódios, suaviza arestas, humaniza o passado.
Seja como seja, acima de tantas outras imagens, e sem saber exactamente porquê, guardo a delicadeza invariável com que o cónego Folgado cumprimentava, em cada encontro, a senhora D. Guiomar, minha mãe. Era uma atenção verdadeira, simples, sem pressa. Tanto mais assinalável quanto parecia transportar uma urgência íntima: a pressa silenciosa de quem carrega a consciência de que o tempo é precioso, e não chega para tudo o que se deseja cumprir.
No próximo dia 8 de Junho passam cem anos sobre o nascimento do Cónego Aníbal Folgado. Toda a sua vida pode ser resumida numa simples opção linguística: preferiu sempre o “nós”.
Ao longo dos últimos meses, enquanto investigava a sua vida para um livro que será publicado em breve, percorri jornais antigos, correspondência, relatórios, testemunhos e memórias. Encontrei-me com o professor, o reitor, o missionário dos emigrantes, o fundador de instituições sociais, o pároco, o promotor da Obra Kolping e da Fundação Betânia.
Mas, sobretudo, encontrei-me com um homem que parecia pouco interessado em si mesmo.
Quando deixou Bragança, em 1974, num dos momentos mais difíceis da sua vida, escreveu palavras que ainda hoje me impressionam pela sua limpidez. Não falou das mágoas, injustiças ou eventuais direitos. Falou dos pobres, dos estudantes mal alimentados e mal alojados e da evangelização cristã de todos.
Cónego Folgado deixou marcas profundas, construiu comunidades e construiu confiança: nos seminários onde ensinou; entre os emigrantes portugueses da Alemanha que encontravam na Missão Católica uma casa longe de casa; nas crianças apoiadas pela Obra Kolping; nos idosos acolhidos pela Fundação Betânia; nas famílias que o procuravam; nos estudantes que ajudou a estudar; nos muitos que jamais poderão dizer da sua gratidão.

Quando se assinalam cem anos do seu nascimento e quando está prestes a ser publicado um livro sobre a sua vida, obra, pensamento e os testemunhos de quem com ele partilhou caminho, dou por mim a pensar que talvez Aníbal Folgado nunca tenha desejado verdadeiramente ser recordado, querendo apenas que as obras continuassem, os pobres encontrassem ajuda, os estudantes caminho e que os idosos encontrassem amparo. Que alguém continuasse a fazer aquilo que era preciso fazer.
E começo a suspeitar que a atenção é uma das formas mais raras e mais necessárias da caridade evangélica.

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