Bispo Vermelho, com sabor a laranja, lazarina
A eficácia da proteção social no Nordeste Transmontano resultou da arquitetura de redes humanas. Entre o final de 1980 e o início de 1990, a liderança de D. António José Rafael, então Bispo de Bragança-Miranda, desempenhou um papel marcante e polémico.
Personagem mediática, cultivou uma imagem complexa. Atribuíram-lhe o epíteto de “Bispo Vermelho”, embora o rótulo não correspondesse à sua matriz teológica. Confrontava o Governo e denunciava o abandono e a falta de acessibilidades na região.
Este temperamento indómito escondia uma profunda ternura pela religiosidade popular, que o levou a impulsionar a festa de São Lázaro, em Bragança, onde se vende a tradicional laranja. A história registaria o paradoxo deste “Bispo Vermelho” a operar em sintonia com os seus “parceiros laranjas” da política governamental, um entendimento cromático que parecia antecipar o próprio fruto. D. Rafael gostava de lhes chamar às laranjas, tal como o povo, as “lazarinas”, expressão que repetia com um sorriso rasgado e um incendiário brilho nos olhos, unindo o pastor à graça do povo.
Na moral, tornou-se uma voz ativa nas causas da vida, erguendo uma barreira contra o aborto. Percebendo que a sobrevivência do território dependia da demografia, lançou o apelo ao “terceiro filho” contra a desertificação.
Lamecense de origem, D. António Rafael fez-se o transmontano mais vincado. Exigia aos futuros padres que conhecessem a terra que iam servir. No Seminário Maior, estipulou como leitura obrigatória as obras do Abade de Baçal e, de Monsenhor José de Castro. Para o prelado, os seus sacerdotes tinham de ser intérpretes da identidade transmontana.
Esta imersão cultural moldou o seu pragmatismo. No início dos anos 90, as reformas de solidariedade eram lideradas em Lisboa por José Silva Peneda, Ministro do Emprego e da Segurança Social, onde D. António Rafael funcionou como cúmplice institucional estratégico. Para que essa cumplicidade resultasse, a figura de Adão Silva revelou-se indispensável como interlocutor local. Enquanto deputado eleito, foi a correia de transmissão ideal, traduzindo as necessidades distritais junto do Ministério e viabilizando parcerias. O Bispo disponibilizou as paróquias para absorver os fundos, estruturando a rede de Centros Sociais Paroquiais.
Esta envolvência encontrou o coroamento na “menina dos seus olhos”, a edificação da nova Catedral de Bragança. O projeto afirmou-se como a única Catedral construída em Portugal no século XXI. Representou a assinatura de um episcopado que recusou aceitar a decadência do interior.
D. António José Rafael uniu o imperativo da fé à exigência da cidadania territorial, agindo como o parceiro e o intérprete de uma proximidade que salva.
