A opinião de ...

A Humanidade é Sublime (Magnifica Humanitas)

A Humanidade é Sublime. Eis a melhor tradução que encontrei para o título da primeira Encíclica do Papa Leão XIV (Despacho de 15 de Maio, apresentação de 27 de Maio de 2026) afirmando a supremacia do humanismo, da cultura e da inteligência humana sobre a Inteligência Artificial (IA).
Infelizmente, tenho de dividir este tema com outro, subsidiário do pensamento do Papa Francisco I e do actual Papa, Leão XIV. Tal tema é o falecimento do epístemo-sócio-antropólogo Edgar Morin, no passado dia 30 de Maio. Voltarei à evocação deste epistemólogo social noutra oportunidade. Por agora, quero apenas assinalar a grandeza da obra que ele nos deixa: 1) a aplicação da dialéctica piagetiana à evolução da humanidade; 2) a compreensão da evolução humana como processo homólogo entre filogénese (processo evolutivo e histórico, a que chama de hominização) e antropogénese (processo de desenvolvimento individual); e, 3, a construção e fundamentação de uma epistemologia (realização do conhecimento) da complexidade. Não houve área do humano, incluindo a religião cristã, que não tivesse sido influenciada pelo seu pensamento.
Com a Encíclica Magnifica Humanitas (MH), o Papa Leão XIV, de nome original Robert Francis Prevost, mostrou que quer uma Igreja Católica inserida no e a par com o tempo atual. Reflectindo sobre a IA, Leão XIV realça as capacidades da inteligência humana, integradora do passado e do presente e prospectora do futuro à luz da tradição histórica e da complexidade contemporânea, sobrepondo à IA as imensas capacidades das significações culturais e emocionais de cada ser humano e de cada sociedade. Estamos muito longe de a IA conseguir entretecer o racional e o emocional, o real e o simbólico, o referente e o significante.
Na Encíclica, analisa-se todas as possíveis consequências de uma provável sobreposição das formas mais elaboradas de informação e de comunicação, tal como a IA, sobre as capacidades racionais dos seres humanos. E é aqui, nesta provável «des-hominização», que a Encíclica entronca no processo de evolução da humanidade à luz da obra de Morin, pois, substituindo, pela máquina, o cérebro humano e a dialéctica mão-cérebro na evolução, estaremos a parar-lhe a evolução das capacidades e a «estupidificá-lo.
A Encíclica é analisada por protagonistas de todos os quadrantes religiosos e políticos. São-lhe referidas a abrangência, a actualidade e a pertinência. É-lhe lastimada exageradamente a superficialidade exegética, quase a roçar a dessacralização da doutrina. António Barreto, auto-declarado ateu, escreveu: «O Papa (…). Contesta o primado do poder sobre as outras dimensões da vida, como a solidariedade, a compaixão e a cultura. Contraria expressamente a afirmação do poder como critério de vida, do poder sobre os outros, do poder contra os outros. Nega a ideia, tão defendida por esse mundo fora, de que quanto mais poder, melhor. Afasta o poder da técnica e da ciência quando utilizado para fins que não são a afirmação dos valores humanos. Não se deixa confinar numa atitude conservadora de recusa da inovação e do avanço da ciência: antes pelo contrário, festeja o progresso, desde que ao serviço da humanidade e da igualdade.» (Barreto, em https://www.publico.pt/2026/05/30/opiniao/opiniao/habemus-papam-2176563).

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