Antigo Ministro do Ambiente defende que a guerra no Irão “pode ser oportunidade"
O antigo Ministro do Ambiente do Governo de António Costa, Duarte Cordeiro, defendeu, em Vila Flor, no passado sábado, que a guerra que agora se trava no Médio Oriente pode vir a representar uma oportunidade para o Nordeste Transmontano em várias áreas, da produção de energia à produção alimentar. No entanto, o antigo governante também sublinhou que é preciso rever as contrapartidas para este território pela exploração dos seus recursos naturais.
Nestas alturas importa relembrarmos o peso que estes territórios têm na produção de energia renovável do país e o que isso contribui para que Portugal não tenha mais dependência do exterior em momentos difíceis como este. Isto é muito importante relembrar por duas dimensões: valorizar a capacidade instalada que já temos, mas também perceber como é que o território consegue, se calhar com mais benefícios para o território do que teve no passado, continuar a contribuir para essa autonomia e dependência”, disse, em declarações ao Mensageiro.
Duarte Cordeiro foi um dos oradores de um painel sobre economia circular e aproveitamento de resíduos, que reuniu ainda o diretor geral da Resíduos do Nordeste, Paulo Praça, e o presidente da Câmara de Vila Flor, Pedro Lima.
“Há mais caminho a fazer quando olhamos para o futuro, quer no que diz respeito a aproveitar essa capacidade para instalar indústria que nos torna também mais independentes, quer a entrecruzar os setores económicos e perceber como é que hoje a agricultura, as florestas, que marcam muito estes territórios, podem beneficiar dessas cadeias de valor. E há muito valor acrescentado em biometano, combustíveis alternativos que resultam de matéria-prima que vem de natureza agrícola ou florestal e que poderiam trazer que se revelou para este território. Portanto, há duas constatações: a primeira, a importância que este território já tem, que nem sempre nós nos lembramos; segundo, o potencial que pode ter se nós alinharmos bem os incentivos e se percebermos que ainda há muito trabalho a fazer de dependências que ainda mantemos, que ainda temos. Eu podia falar de energia, podia falar dos combustíveis, mas também podia falar da área alimentar”, frisou Duarte Cordeiro.
O antigo ministro acredita que “mais poderia ser feito relativamente à descentralização das receitas que introduzam motivações nestes territórios para continuar a aproveitar esse potencial”. “E contra mim falo [pois tutelou a pasta], mas poderia haver mais trabalho ao nível por exemplo, dos recursos mineiros. Outra coisa muito importante, e gostava de citar uma iniciativa que não é minha, é da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal, é que Portugal tem o Estatuto do Jovem Empresário Rural, mas não o implementou, não o materializou. Portanto, nós não conseguimos resolver nenhum destes desafios sem resolver o desafio demográfico, sem fixar pessoas cá e trazer para cá mais pessoas. E para isso o Estatuto do Jovem Empresário Rural, se for implementado, ajuda muito, porque permite que nós percebamos que não é só o agricultor, são todas as indústrias à volta da agricultura, os serviços que são necessários, portanto, tudo o que não é agrícola, mas que é determinante. E esse estatuto, se for implementado, ajuda a fixar pessoas no território”, sublinhou.
Duarte Cordeiro disse ainda que um dos problemas no país tem a ver com o abandono das propriedades, muitas delas em heranças indivisas. “Na altura que fui ministro, ainda antes de sair, deixámos publicado o resultado do grupo de trabalho de reforma da propriedade rústica, que deixou um conjunto de propostas e de mudanças. Esse portfólio está identificado. Acho que fazia sentido o governo tomar a iniciativa de dar continuidade à reforma da propriedade rústica em aspetos que são essenciais, que permitem combater essa abandono. Porque se é verdade que já conseguimos identificar aqui algumas cadeias de valor, e poderia falar-lhe do mercado voluntário de carbono, por outro lado, se tivermos a propriedade rústica totalmente dividida, atomizada, sem capacidade de gestão, vai-se tornar mais difícil aproveitar essas oportunidades. A demografia é um problema, a propriedade é outro”, destacou.
Duarte Cordeiro aproveitou para deixar algumas sugestões: Coisas simples e coisas mais complexas. As simples são, por exemplo, evitar que continue a haver divisão nas heranças, divisão da propriedade abaixo de unidades mínimas de cultura, meter um prazo para as heranças indivisas se resolverem, forçando a que haja gestores de heranças que resolvam essas heranças, incentivar o emparcelamento. Portanto, são algumas ideias-chave que são muito importantes para ganhar alguma escala e para permitir atrair valor para o território”, apontou.
Pedro Lima defende mais autonomia financeira para os territórios
Já o presidente da Câmara de Vila Flor, o social-democrata Pedro Lima, defendeu que “cada euro gasto por uma Câmara Municipal, uma Junta de Freguesia, está mais próximo do problema, por isso também tem a solução mais apropriada e consegue realmente canalizar esses recursos para uma solução mais eficiente”. “Aqui em Vila Flor já fazemos à escala que nos é permitida, porque nomeadamente o Fundo Ambiental, para onde as nossas contribuições de resíduos são direcionadas, ainda não encontrou, digamos assim, um caminho muito óbvio e muito direto para o nosso território. Aí temos que trabalhar um pouco melhor, um pouco mais, que é para nos ajudar também a mudar comportamentos, a convergir para taxas de utilização de resíduos, portanto, de reciclagem dos mesmos de uma forma mais eficiente. Essas verbas têm que ser canalizadas também para mais próximo do território”, defendeu.
Este fim de semana das Amendoeiras em Flor naquele concelho do Nordeste Transmontano ficou marcado por um torneio de sueca [jogo de cartas] solidário, que juntou cerca de cem participantes, o dobro dos do ano passado, que disputaram um primeiro prémio de mil euros.
As inscrições reverteram a favor de um cidadão vilaflorense, que atravessa um momento difícil em termos de saúde.
“Está com problemas de saúde bastante significativos e está a criar-se uma onda de solidariedade em Vila Flor para com esta pessoa e o município aqui também decidiu juntar-se a essa onda que é característica da população portuguesa, mas que talvez aqui entre as montanhas realmente tenha um significado diferente”, sublinhou o autarca.
Ainda no fim de semana decorreu uma caminhada e um concerto de Toy que encheu o recinto da feira.
