A opinião de ...

Encerra a obra sem Chave d’Ouro

Não há pachorra para o silêncio resignado perante a descaracterização do centro histórico de Bragança. Sem canudos, nem letras gordas, escrevo com as minhas capelas, puxando pelo brio que me racha a alma. Há quarenta anos assisto a dolorosos ataques ao património do burgo. O espaço virou estaleiro imobiliário, sem avisar que era a memória viva da comunidade.
A demolição parcial do Café Chave D’Ouro (o “Redondo”), na Praça da Sé, é um progresso irreparável. Botou-se abaixo um marco de sociabilidade republicana que acolheu Mário Soares. “Por entre os sonhadores da sociedade justa”, parava por lá também o “catedrático dos polidores”, o “Zé Luís” de “sorriso imaterial que enchia a cidade”, como lembra o Dr. Calado. O edifício caiu sob oportunas justificações que a sensibilidade comum custa a digerir. O património parece apenas ativo financeiro com história a estorvar.
Várias pessoas perguntaram: “Qual a necessidade de escrever? É o seu quarto que está em causa? Julga que muda algo? O que ganha com isso? Sabe que haverá repercussões? Eu não decido por si, só o estou a alertar”.
Há quatro décadas observo este desaparecer do casario antigo que me viu crescer. Não me conformo com a primazia do betão e do lucro, quando a lógica pedia o respeito pelo bem comum. Não é a minha casa, mas é a nossa “casa comum”. É de rir ver cultura e desenvolvimento em equipas adversárias, com o betão a vencer por goleada. Se nada mais conseguir, ergo a voz pela liberdade de expressão. Se não enfrentamos o medo, morremos de pasmo.
Hoje, a evolução construtiva permite fazer milagres pela preservação, salvaguardando a alma urbana. Optar pela destruição parece comovente facilidade cultural.
A relevância do caso adensa-se com factos. Há dias, lembravam-me os vestígios da Bragança romana ali perto. Se o subsolo cumpre a papelada legal, o que fica em terna dúvida é se alguém esmiuçou as velhas alvenarias com rigor científico ou se foi mais prático dar-lhe rápido sumidouro. A proteção da nossa história ficou em águas de bacalhau.
Como avisou Eduardo Lourenço, vivemos na “perpétua desfasagem entre o que somos e o que queremos parecer”. Desprezamos a história por uma modernidade de plástico. O risco é o “pastiche”: edifícios de 2026 emulam bem os de 1800, não emulam?
Este cenário deixa em alerta o Palácio dos Calaínhos, joia setecentista unida por igual proprietário ao café desmantelado. Seria injusto cobrar ações às instâncias competentes, a sua missão de silêncio tem sido cumprida religiosamente. Ao prometido pela Assembleia Municipal falta o devido, pôr em prática a salvaguarda por inventariação e classificação. Para quê o fardo de preservar se o camartelo resolve a manutenção? Restará celebrar a paz do betão acabadinho de fazer, erguida sobre o silêncio de quem devia fiscalizar e o pasmo de quem prefere não ver, ou encerra a obra sem Chave D’OURO.

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