Amar para além da utilidade
Mais cedo ou mais tarde, todos acabamos diante de um hospital, de um funeral, de uma ausência irreversível ou de uma noite demasiado longa para ser atravessada sozinho. E é nesses momentos que percebemos como eram frágeis muitas das coisas a que demos importância excessiva.
Os diplomas envelhecem connosco. Os cargos passam para outros nomes. O prestígio é breve. As propriedades tornam-se paredes silenciosas. Até as fotografias das viagens acabam esquecidas algures numa memória digital.
No fim, permanece apenas uma pergunta: existe alguém capaz de ficar quando deixamos de ser úteis?
Alguém que continue presente quando o corpo abranda, quando a doença chega, quando a alegria vacila ou quando a vida perde brilho exterior. Talvez essa seja a verdadeira riqueza da existência. Não aquilo que acumulámos, mas aquilo que deixámos vivo no coração dos outros.
As pessoas mais bonitas que conheci raramente foram as mais perfeitas. Foram aquelas que passaram pelo sofrimento sem deixar endurecer completamente o coração. Pessoas feridas pela vida, mas ainda capazes de ternura. Gente que soube cuidar sem fazer ruído. Pessoas que permaneceram.
Num mundo obcecado pela velocidade, pela aparência e pela utilidade, talvez um dos gestos mais revolucionários seja este: continuar a acreditar que nenhuma pessoa perde valor só porque sofre.
Porque, no fundo, ninguém deseja apenas ser admirado. Todos queremos encontrar alguém diante de quem possamos deixar de fingir. E descobrir que, mesmo quando deixamos de ser necessários, continuamos a ser amados.
