A opinião de ...

À espera do milagre

Logo que o povo sente no ar a preparação para a festa anual em honra do padroeiro da sua terra, não deixa em paz os comissários responsáveis pela respetiva preparação. Todos os seus passos estão sujeitos aos mais diversos comentários.
A curiosidade leva a tal ponto a paciência daqueles, que por vezes, há zangas; e há também apostas entre os inquisidores, que se prolongam até perto da festa se, até lá, a curiosidade não for satisfeita.
É bem verdade que a festa anual de qualquer padroeiro envolve sempre a preocupação de todo o povo da sua terra. É o arranjo da igreja e dos andores; a limpeza do adro, a missa e o pregador, é a banda, são os foguetes e a procissão, o embelezamento das ruas, as toalhas nas janelas por onde aquela vai passar com as bandeiras e os estandartes, o senhor padre debaixo do pálio, os andores, os anjinhos e crianças como figuras alegóricas dum ou doutro santo, seguidos pelos fiéis que, nas pausas da banda, cantam e rezam com fervor, enquanto depositam nas bandejas que passam pelo meio deles o seu generoso donativo; são as bandeiras multicores espalhadas pela povoação, cada uma ondulando ao vento no cimo do mastro; é o fogo de artifício e o conjunto musical cujo som altíssimo faz vibrar sobretudo a mocidade, facilmente puxada para o seu pé de dança, no terreiro, durante o arraial.
Necessário é também assegurar o tempo reservado às comissárias que tratam da sala, do almoço e do jantar dos senhores padres, (um dos preparativos que não pode ficar esquecido), além de outros necessários à boa realização do evento que terá de ser o melhor das redondezas e muito melhor que o do ano anterior, a cargo de outra Comissão de Festas.
Anda-se um ano inteiro a pensar na festa tradicional; mas, de qualquer modo, sou de opinião que, sobre ela, é sempre útil recordar estes afazeres.
Além da procissão acima sucintamente descrita, considero que há, pelo menos, dois momentos de grande recolhimento durante a festa, que não podemos esquecer: a missa cantada e o sermão.
Tocada e cantada pela banda, a missa é campal, pois não há igreja ou capela que acolha a multidão. A concentração dos devotos neste ato religioso é total, e é grande a sua participação na interação com o celebrante, até ao momento em que chega a vez do tão esperado sermão, atentamente escutado. Isto, porque para este ano, foi convidado o pregador mais famoso da região que eles já ouviram em festas doutras terras.
Primeiro, fala do padroeiro – da vida e dos milagres que operou. Em seguida, a sua voz faz-se ouvir com maior intensidade, quando se refere à sua proteção e aos pedidos que, através dele, vão chegar a Deus os quais, pela Sua infinita bondade, não deixará de atender. Finalmente, incute na assembleia a necessidade da esperança. Esperar com confiança, por tudo quanto, durante o ano, (não esquecendo os emigrantes), pediram ao padroeiro, desde a saúde à sempre requerida solidariedade, à bênção dos animais domésticos, dos campos e das culturas, à acalmia das tempestades, à proteção dos mais pobres e ao apoio dos idosos que nunca saíram da terra.
Quando os festejos acabam, todos vão descansar. Mas, no dia seguinte, já retomadas as forças, hão de deixar tudo no lugar que lhe compete, todas as limpezas e outras obrigações serão feitas, e toda a gente começará a comentar sobre quanto se passou na festa e de quanto poderão alcançar por intermédio do seu padroeiro, sempre que os bons sonhos se transformem em realidade.

Edição
4107

Oferta para Assinantes

Cartão Moeve