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Do esterco nas ruas ao carbono invisível: o inimigo que mudou de forma

No início do século XX, as cidades enfrentavam um problema agora difícil de imaginar. As ruas estavam repletas de cavalos responsáveis pelo transporte de pessoas e mercadorias. Milhares de animais circulavam diariamente, produzindo enormes quantidades de dejetos. O cheiro era intenso, as moscas proliferavam e a contaminação da água favorecia a propagação de doenças. O esterco acumulado era um grave problema de saúde pública.
A importância dos cavalos era tal que deu origem a uma expressão curiosa, ainda hoje usada para desejar sorte aos atores numa estreia. Dizia-se que havia “muita m…” quando um teatro ou sala de espetáculos estavam cheios, pois quantas mais carruagens havia, mais público assistia ao espetáculo. Contudo, mais dejetos eram deixados pelos animais.
Foi neste contexto que surgiu uma das maiores revoluções tecnológicas da história: o automóvel. O Ford Modelo T, lançado em 1908, foi o primeiro automóvel produzido em série. Inicialmente custava cerca de 850 dólares mas, graças à produção em massa, baixou para menos de 300 dólares, tornando-se acessível à classe média.
A mudança foi avassaladora. O desaparecimento dos animais melhorou a higiene das cidades e reduziu significativamente os problemas de saúde pública. Simultaneamente, as pessoas passaram a percorrer distâncias maiores. Passou a viver-se longe do local de trabalho, impulsionando o crescimento de bairros residenciais, o que separou fisicamente as vivências profissionais das pessoais. Além disso, surgiram profissões ligadas ao automóvel, como oficinas, postos de abastecimento e transporte rodoviário. Desta maneira, o comércio e o turismo conheceram uma expansão sem precedentes.
No entanto, o problema não desapareceu, apenas mudou de forma. O carbono que antes era visível nos dejetos dos animais passou a libertar-se, de forma sibilina, pelos tubos de escape como dióxido de carbono, um dos principais gases responsáveis pelo efeito de estufa.
Atualmente, quase toda a economia mundial depende dos transportes. Chegam-nos kiwis das antípodas, carne da América do Sul, roupa do extremo oriente e as farmácias são abastecidas diariamente com medicamentos provenientes de diferentes países. A mobilidade tornou-se a base da economia global.
Porém, esta conquista tem um custo. O consumo de combustíveis fósseis faz crescer a concentração de dióxido de carbono na atmosfera e agrava o efeito de estufa. Consequentemente, multiplicam-se as ondas de calor, secas, incêndios, tempestades e cheias. Parte do dióxido de carbono dissolve-se nos oceanos, provocando a sua acidificação e consequente dificuldade de formação dos exoesqueletos calcários de muitos animais.
A história dos transportes encerra, assim, uma notável ironia. O inimigo que outrora era visível, malcheiroso e se acumulava nas ruas desapareceu dos nossos sentidos. As cidades tornaram-se mais limpas e saudáveis. Todavia, o mesmo inimigo transformou-se num adversário invisível, disseminado pela atmosfera sob a forma de dióxido de carbono. Já não o vemos nem o cheiramos, mas continua a fazer mossa, influenciando silenciosamente o clima, os oceanos e a nossa vida.
Enquanto o esterco se acumulava diante de nós, o novo problema acumula-se no ar, invisível, global e muito mais difícil de resolver.

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