A opinião de ...

Morreu Jürgen Habermas

Morreu anteontem, dia 12, Jürgen Habermas, alemão de 96 anos, grande pensador da democracia e da sociedade. Um dos pais da democracia moderna. Juntamente com Carole Pateman, John Rawls e Licínio Lima, forneceu-nos os fundamentos de uma teoria da democracia como participação dos cidadãos na vida pública, a democracia deliberativa, baseada no respeito pelo diálogo e na reciprocidade de direitos e de deveres.
Autor de obras maiores como Conhecimento e Interesse, O Discurso Filosófico da Modernidade, A Transformação Estrutural da Vida Pública, Teoria da Acção Comunicativa, Habermas legitimou no plano moral a importância da Escola de Frankfurt no pensamento filosófico, sociológico e político ocidental, libertando aquela Escola dos vieses esquerdistas que lhe eram atribuídos, desde Adorno e Horkheimer, e contracenando com Anthonny Giddens na proposição de uma via interaccionista e, contratualista, na linha de Immanuel Kant, para o pensamento ocidental.
Habermas levou ao limite as virtualidades da Filosofia das Luzes e da Aufklarung alemã na construção da democracia deliberativa. Esta tem de ser uma construção onde todos devem ser conduzidos a intervir e a julgar, evitando a prevalência dos «iluminados». Denunciou as desigualdades, de todos os tipos e géneros, na sociedade ocidental, ao ponto de Yves Sintomer, em La Démocratie Impossible? Politique et Modernité chez Weber et Habermas?, ter considerado que, segundo estes dois filósofos, a democracia como igualdade real é uma impossibilidade prática pela constante luta por poder e dominação na sociedade, dados os diferentes grupos sociais em conflito.
Habermas antecipou o pluralismo da sociedade cibernética, nomeadamente as imensas possibilidades participativas que ela oferece, mas não previu a cacofonia das redes sociais, hipotetizando antes que o pluralismo de expressão faz parte da construção discursiva do compromisso social. Muito mais tarde, Manuel Castells, em The Rise of The Network Society, também desvalorizou esta cacofonia julgando-a inerente ao debate na construção da verdade. Não era ainda o tempo de admitir a necessidade de regulação e controlo das redes sociais, regulação que hoje começa a ser mais ou menos julgada como necessária.
A morte dos protagonistas socais (cientistas, filósofos, sociólogos e especialistas de todas as áreas da humanidade) é sempre um momento de reflexão. No caso de Habermas, é-o muito mais, dada a influência que ele exerceu no pensamento ocidental, designadamente na consolidação da democracia, ombreando com Kant, Karl Popper e John Stuart Mill. O seu «kantismo» demonstra que não há democracia sem igualdade no acesso aos bens culturais e materiais e muito menos ao mais sagrado bem da humanidade – a interacção comunicativa e construtiva no contrato social. O homem só é sapiens porque é falante, comunicante e interactuante.
Nesta linha, António Guerreiro afirma que
«O efeito Habermas foi também sentido no debate ao mais alto nível da vida política (…). Digno herdeiro de Kant e da noção emancipadora da Aufklärung, do Iluminismo, uma herança bem patente nos seus conceitos de espaço público e da “acção comunicativa” (…), construiu um sistema — ou vários sistemas sucessivos — que exerceu uma grande influência sobre numerosos domínios do pensamento: a filosofia, a sociologia, as ciências humanas e sociais em sentido lato.»
(cf https://www.publico.pt/2026/03/14/culturaipsilon/noticia/jurgen-haberma…) .

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