A opinião de ...

MAIORIA E DEMOCRACIA

Toda a gente sabe que quem não arrisca, não petisca e, igualmente, ninguém ignora que mais vale um pássaro na mão do que dois a voar. Ora, assim sendo, qualquer que seja a atitude perante um desafio estará sempre respaldada na opinião popular que é velha, experiente e sábia. Igualmente é possível, perante as várias formas assumidas pelo poder democrático, elogiá-lo e desmerecê-lo recorrendo a insuspeitas opiniões de reconhecidos vultos da humanidade. Sendo esperado o encómio dos seus criadores e defensores, igualmente a depreciaram e desabonaram conhecidos democratas e insignes pensadores, como Churchil e Borges. Também, para além do óbvio descrédito de déspotas e ditadores, destes houve quem lhe reconhecesse méritos e, como tal, lhe creditaram valor fazendo-se eleger e organizando eleições, mais ou menos viciadas. É inegável que o resultado da consulta popular condiciona o exercício do poder mas o seu resultado concreto depende principalmente com o que se faz com o governo daí resultante.
Não há dúvida que a maioria absoluta, seja de que partido for, proporciona situações passíveis de abuso do poder, mas, em abstrato e em teoria é a melhor expressão do poder democrático pois consagra o princípio democrático de governo em nome da maioria. Não podemos deixar de nos questionar se o condicionamento por uma minoria não seria mais perigoso e contrário à própria democracia. Se a maioria pode propiciar excessos, a quase maioria pode ser ainda mais distorcedora... para fugir ao pântano. Será menos legítimo que o PS, escorado na confiança absoluta recebida dos portugueses, para concretizar todas as suas propostas do que, apesar de uma hipotética vitória folgada, mas relativa, tivesse de implementar requisitos e opções claramente minoritárias, por uma questão de sobrevivência política e, porque não, de governabilidade?
Há, entre outras, uma característica definidora da democracia: o respeito por todas as opiniões e o tratamento igualitário de todos os cidadãos, mesmo daqueles que a não respeitam, que a combatem e desmerecem. Não se pode, em nome da democracia, ostracizar ou remeter para guetos, quem quer que seja, nem sequer os que defendem outros guetos e proclamam a apologia da ostracização dos seus semelhantes. A melhor forma de combater as ideologias autoritárias é tratá-las democraticamente. A validade e legitimidade de um voto não estão dependentes dos valores políticos ou morais de quem o exerce ou de quem o recebe.
Discriminar quem tem um pensamento oposto ao nosso não é a melhor forma de o contrariar, bem pelo contrário. Como o principal motor da sua expansão é, precisamente, a luta contra o “sistema” que querem derrubar, começando por o fazer tremer. A marginalização que dele recebam vai aumentar o potencial de queixa e a motivação para a prossecução do seu “combate”.
Não se apaga uma fogueira com gasolina.
Conversar é diferente de levar em consideração ou valorizar. António Costa, no seu louvável intento de “desdramatizar” a poder absoluto da maioria, declarou que se vai receber (quase) todos os partidos, fará muito mal se, desse encontro excluir qualquer um, com uma justificação ideológica.

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