As férias na sociedade do desempenho
Vêm aí as benditas férias, assim sentidas, pois há um cansaço que já não vem apenas do trabalho, nem do peso dos dias, nem sequer das horas mal dormidas. É um cansaço mais fundo, mais silencioso e mais perigoso...
É o cansaço de termos passado a viver, quase na plenitude do dia e como exigência da sociedade, como se fôssemos máquinas programadas para produzir, responder, vencer e andar sempre felizes.
A este propósito, Byung-Chul Han, no seu ensaio A Sociedade do Cansaço, coloca-nos uma pergunta assaz pertinente, mais a mais nesta era da IA e da robótica avançada: não estaremos a adoecer porque atribuímos ao ser humano qualidades próprias de um computador, como multitarefa, velocidade, eficiência, desempenho permanente?
É algo desconcertante olharmos para dentro da sociedade hodierna e quiçá dar-lhe razão, pois o mundo de hoje deixou de oprimir sobretudo por proibições e passou a esgotar por possibilidades, levando-nos a adoecer. Tem-nos tornado sujeitos, mais do que obedientes ao “deves”, verdadeiros prisioneiros seduzidos pelos diferentes “podes”: ir mais longe, ganhar mais, reinventar-te, superar-te...
Contudo, nesta gramática aparentemente luminosa de liberdade, instala-se paulatinamente uma servidão nova, diferente, a da pessoa que se explora a si própria e ainda se culpa por não conseguir corresponder ao ideal que lhe foi proposto.
Depois da sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault, feita de vigilância, normas e instituições fechadas, tem emergido uma sociedade de ginásios, escritórios, aeroportos, centros comerciais, plataformas digitais, redes sociais, vigilância algorítmica e avaliações permanentes. É a sociedade do desempenho como também lhe chama o próprio Byung-Chul Han. O olhar do outro já não precisa de nos vigiar de fora, porque o transportamos dentro de nós. Somos, ao mesmo tempo, patrões e operários de nós mesmos, como se fôssemos ao mesmo tempo Prometeu e a águia.
Repare-se que a grande perversidade está no facto de esta pressão se apresentar sob a máscara da felicidade! Todos devem estar bem, realizados, disponíveis, motivados, bem-sucedidos. Quem não consegue não se sente punido, por alguém que o castigue, mas sente-se culpado. A promessa de liberdade transforma-se, assim, em ansiedade; a promessa de realização converte-se em exaustão; a promessa de reconhecimento desemboca na necessidade insaciável de validação.
Talvez por isso, este século XXI, venha a reconhecer-se não apenas pelas doenças virais ou bacterianas, mas pelas patologias emocionais, neuronais e até espirituais, como a ansiedade, depressão, défice de atenção, burnout e a sensação persistente de insuficiência. À vida fugaz, frágil e bela como descobrimos no nosso território de Bragança tende-se a responder com produtividade histérica e febril, como se o sentido da vida pudesse nascer da acumulação de dinheiro ou outros bens, da velocidade com que se vive e da permanente exposição social e mediática.
Benditas férias então se forem ocasião para recuperar a vida na sua dimensão contemplativa, dos concertos, do convívio, dos sabores gastronómicos e dos saberes partilhados em amenas cavaqueiras, não como fuga ao mundo mas como resistência lúcida. Aproveitar para parar, desligar, escutar, pensar, caminhar, contemplar, rezar, aceitar limites, cuidar do corpo e da alma, coisas que não são um luxo nem um despropósito.
Sermos mais humanos é também sabermos não produzir, não respondermos imediatamente, não estarmos sempre disponíveis, não transformar cada minuto em rendimento.
A verdadeira liberdade começa quando deixamos de nos tratar como máquinas.
Talvez a maior sabedoria do nosso tempo, em contraponto da sociedade do desempenho, seja reaprender a descansar sem culpa, para voltarmos a viver com alma.
