Mirandela

“Os resultados falaram mais alto do que o preconceito”

Publicado por António G. Rodrigues em Qui, 03/05/2026 - 09:21

Júlia Rodrigues foi a primeira presidente de Câmara de Mirandela. Tinha sido deputada, cargo ao qual voltou após deixar a autarquia.
Mensageiro de Bragança: Como foi assumir, pela primeira vez, uma mulher os destinos da autarquia? Sentiu alguma desconfiança por parte de colegas e funcionários pelo facto de ser mulher?
Júlia Rodrigues:
Assumir, pela primeira vez, enquanto mulher, os destinos da nossa autarquia foi uma honra imensa, mas também um momento de grande responsabilidade.  Senti o peso simbólico desse passo — não era apenas a Júlia Rodrigues que tomava posse, era, de certa forma, um sinal de mudança e de esperança para muitas mulheres que, durante anos, não se viram representadas nestes lugares de decisão.
Houve, naturalmente, alguma expectativa e até desconfiança. Não necessariamente expressa de forma direta, mas presente em olhares mais atentos, em silêncios mais prolongados, numa necessidade constante de provar competência. Contudo, sempre acreditei que o trabalho consistente, a escuta ativa e o respeito pelas pessoas são as melhores respostas a qualquer dúvida.  Com o tempo, o profissionalismo e os resultados falam mais alto do que qualquer preconceito.

MB.: Acha que a situação evoluiu até aos dias de hoje? De que forma?
JR.:
Acredito que evoluímos, sim. 
Hoje há uma maior consciência coletiva sobre a importância da igualdade e da representatividade. As mulheres estão mais presentes na política, nas empresas, nas associações, nas lideranças locais.
No entanto, essa evolução não aconteceu por acaso — foi fruto da coragem de muitas mulheres que abriram caminho antes de nós. Ainda há trabalho a fazer, mas sinto que as novas gerações já encaram a liderança feminina com mais naturalidade. Isso é um sinal muito positivo.

MB.: Que constrangimentos sentiu?
JR.:
Talvez o maior constrangimento tenha sido o escrutínio diferente. Muitas vezes, uma mulher em funções públicas sente que tem de estar permanentemente a provar que é capaz, que é firme sem deixar de ser sensível, que é determinada sem ser rotulada. Houve também o desafio de conciliar a vida pública com a vida pessoal e familiar — uma realidade que continua a pesar de forma muito particular sobre as mulheres. Mas cada obstáculo foi também uma oportunidade de crescimento, de resiliência e de afirmação.

MB.: Na sua opinião, que características/qualidades pode aportar uma mulher a um cargo autárquico relativamente a um homem?
JR.:
Acredito profundamente que não se trata de uma questão de superioridade, mas de complementaridade. Homens e mulheres trazem experiências de vida diferentes, olhares distintos, sensibilidades próprias.
Muitas mulheres trazem para a política uma grande capacidade de escuta, empatia, proximidade e gestão equilibrada de conflitos. Têm uma visão muitas vezes agregadora, conciliadora, sem abdicar da firmeza quando é necessária. Essa combinação pode enriquecer muito a governação local, que é, acima de tudo, feita de proximidade às pessoas.

MB.: O que é preciso para haver mais mulheres na Política?
JR.:
É preciso confiança — desde logo, confiança das próprias mulheres nas suas capacidades. É preciso apoio das famílias, das estruturas partidárias e da sociedade. É preciso que deixemos de olhar para uma mulher na política como uma exceção e passemos a vê-la como algo natural. Mas, acima de tudo, é preciso exemplo. Quando uma mulher ocupa um cargo de responsabilidade com competência e humanidade, está silenciosamente a dizer a outras que também é possível. Se o meu percurso puder inspirar uma única jovem a acreditar que pode servir a sua comunidade, então já valeu a pena.

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