Nordeste Transmontano

Falhas na distribuição dos CTT deixam população sem cartas e jornais durante semanas

Publicado por António G. Rodrigues em 29-10-2026 10:21

Os atrasos e as falhas na distribuição de correspondência pelos CTT estão a provocar queixas em vários concelhos do Nordeste Transmontano, com relatos de cartas que nunca chegaram ao destino, faturas que não são entregues e jornais que passam semanas sem aparecer nas caixas de correio. Apesar das reclamações, os CTT garantem que os problemas no distrito de Bragança já estão resolvidos, atribuindo os constrangimentos a limitações temporárias de recursos humanos.

No concelho de Vinhais, Elvira Neves, residente em Seixas, na zona de Santalha, contou ao Mensageiro de Bragança que deixou de receber correspondência, incluindo faturas da eletricidade, sendo obrigada a contactar os fornecedores para obter os dados necessários ao pagamento.

"Eu ligo para lá e dou uma referência, a entidade e o montante, e eles é que pagam. Porque não recebo nenhuma carta", explicou.
A situação também afetou a receção do Mensageiro de Bragança, do qual é assinante.

"Há para aí um mês e meio que eu não recebi o Jornal Mensageiro. Agora comecei a receber, porque anda lá uma senhora que já conhece bem a aldeia e ela é que anda a dar a volta, senão o jornal Mensageiro não aparecia", relatou.

A moradora admite preocupação com as consequências que a falta de correspondência poderá ter, sobretudo na área da saúde. Embora ainda não tenha falhado nenhuma convocatória médica, receia que a situação possa comprometer o acompanhamento hospitalar do marido, que sofre de uma doença oncológica.

"Porque se o meu marido vai ter uma consulta e não vem a carta, vai perdê-la, e depois quando volta a apanhar vaga? É complicado", desabafou.

O presidente da Câmara de Vinhais, Luís Fernandes, também criticou o funcionamento dos serviços postais, em declarações à TVI, que abordou os problemas de distribuição no concelho.

"O problema começou quando o CDP (Centro de Distribuição Postal) foi para Bragança. O serviço funciona pior", afirmou.
O autarca não vê vantagens na decisão. "Tenho dúvidas que em termos económicos seja melhor. Uma coisa é certa, a organização é muito pior", considerou.

Empresa paralisada por falta de correspondência

No concelho de Vimioso, Ana Jerónimo denuncia uma situação que considera particularmente grave, com consequências diretas para a atividade empresarial.

Em julho constituiu uma empresa com sede na freguesia de Angueira, com o objetivo de recuperar património familiar e investir na região, mas garante que, passados vários meses, continua sem receber correspondência indispensável ao funcionamento do negócio.
"Até agora, outubro, ainda aguardo as senhas das Finanças e Segurança Social que foram enviadas por carta, que nunca foram entregues. Já efetuei segundos e terceiros pedidos sem sucesso", explicou.

A empresária afirma que também não recebeu o cartão bancário e que a tentativa de reexpedir a correspondência para uma morada no Porto não resolveu o problema.

"A minha contabilidade está bloqueada", lamentou, admitindo que poderá ter de encerrar a empresa e voltar a constituí-la noutra região.
"Como se pretende que se invista na região, se nem um serviço básico como o correio funciona?", questionou.

Ana Jerónimo atribui os problemas à falta de pessoal nos serviços postais de Miranda do Douro, responsáveis pela distribuição nos concelhos de Miranda e Vimioso, garantindo que algumas aldeias estão há meses sem receber regularmente correspondência.
A denunciante apresentou reclamações aos CTT e às Câmaras de Vimioso e Miranda do Douro, mas afirma que a situação não foi resolvida.

Imprensa regional perde assinantes

Os problemas na distribuição postal estão também a afetar a imprensa regional, cuja sustentabilidade depende, em grande medida, das assinaturas.

Paulo Ribeiro, presidente da Associação de Imprensa de Inspiração Cristã (AIC), de cuja direção o Mensageiro de Bragança faz parte, considera que a degradação do serviço prestado pelos CTT tem consequências graves para os jornais.

"A imprensa regional assenta fortemente o seu modelo de negócio na venda por assinatura", salientou, lembrando que as publicações dependem dos serviços postais para chegar aos leitores.

Segundo o dirigente, os atrasos na entrega dos jornais e revistas têm-se agravado ao longo dos anos, penalizando os editores e provocando cancelamentos de assinaturas.

"As consequências têm sido nefastas: inúmeros cancelamentos das assinaturas porque o jornal, quando chega ao destinatário, já está, inúmeras vezes, numa fase temporal muito avançada", alertou.

Paulo Ribeiro atribui os problemas sobretudo à diminuição do número de carteiros e às prioridades estabelecidas pela empresa na distribuição postal.

A AIC tem alertado os CTT e o Governo para esta situação, lembrando que o Estado cofinancia a expedição postal da imprensa regional e que a Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) tem responsabilidades de supervisão e fiscalização do serviço.
O presidente da associação considera, contudo, que a intervenção do regulador não tem produzido os resultados necessários para inverter a situação.

CTT garantem que problemas estão resolvidos

Questionados pelo Mensageiro de Bragança sobre as reclamações, os CTT reconheceram a existência de atrasos na distribuição postal no distrito, mas garantiram que a situação já se encontra normalizada.

"Os atrasos na distribuição postal no distrito de Bragança, decorrentes de limitações temporárias de recursos humanos, já se encontram regularizados, não existindo registo de reclamações relativas a envios que não tenham chegado ao destino", assegurou a empresa.
Os CTT admitem, no entanto, que continuam a existir dificuldades na distribuição noutras zonas do país.

"Já no Porto e em Vila Nova de Gaia mantêm-se alguns constrangimentos pontuais na distribuição, devido aos mesmos motivos", acrescentaram.

A empresa garante estar a reforçar a operação nestas zonas para restabelecer a normalidade com a maior brevidade possível, lamentando os transtornos causados aos clientes.

A garantia de regularização no distrito de Bragança contrasta, contudo, com os testemunhos recolhidos de moradores que denunciam correspondência por entregar e consequências concretas na sua vida pessoal e profissional.

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