As pessoas que vou conhecendo
Há pessoas que vou conhecendo, algumas com profundidade, outras momentaneamente, todavia sempre de forma marcante. Ocorrem-me, tento recordá-las. Tantas são. Algumas, vivas ou desaparecidas, constam de crónicas que escrevi neste Jornal, ou fazem parte da minha obra literária.
É das vivas que escrevo hoje. Quatro. Diferentes.
Imaginem: um professor-cesteiro-pauliteiro-fantasiado de contrabandista. Está bem vivo em São Martinho de Angueira, sobre quem já escrevi na obra coletiva dos antigos alunos da Escola do Magistério Primário de Bragança – 1962-1964. Por terras de Miranda do Douro, e fora, acorre aos encontros culturais de diversa índole. Merece este mestre-escola, que se serviu da palavra para ensinar crianças, este fazedor de cestos com suas mãos, vestido a rigor quando dança com outros pauliteiros, espalha, a seu modo, a lhéngua que sobrevive, e corre, escondido, na personagem de contrabandista. A edilidade deve homenagear o Marcolino Fernandes.
Debruçadas sobre a bacia de cobre, volteando o fruto “amêndoa”, em gestos sincopados, cobrindo-o de açúcar, o belo e único doce mundial, a D. Dina e a sua colaboradora, D. Conceição, fabricam uma das sete maravilhas dos doces portugueses. Figura meritoriamente ao lado de doces conventuais conhecidos e dos pasteis de Belém. Valor de quem recorda a tradição. Se quereis saber algo mais sobre esta iguaria, caros leitores, experimentai a “amêndoa coberta” de Torre de Moncorvo. Gostarão os moncorvenses que a candidatura a património cultural imaterial seja um êxito. Candidatura que a Câmara Municipal, a Confraria da Amêndoa Coberta e alguns cidadãos elaboraram para ser remetida às entidades competentes. Tarda a decisão oportuna. Um atraso injustificado.
Já imaginastes um cirurgião-poeta, caros leitores? Sim, sabemos, respondeis: não foi médico e poeta Campos Monteiro, de Moncorvo, não foi grande escritor o médico Fernando Namora, não poetou e prosou o “nosso” Torga, não foi Abel Salazar médico, poeta, escritor e pintor? Tantos outros médicos navegaram na escrita, profissão alfobre largo de matéria digna de narrativa… Este cronista do MdB, esteve somente algumas horas à conversa com João Barreto Guimarães, numa entrevista para a “Revista Techno Hospital” (dos engenheiros e arquitetos hospitalares). Fiquei deslumbrado pela forma tão rica como este cirurgião-poeta, ou poeta-cirurgião, trabalha a palavra e as ideias. E encanta. Para Barreto Guimarães um agradecimento sentido pelo que transmitiu, serenamente, nesta entrevista.
Há dias, naveguei de novo na “Jangada de Pedra”, e abri os olhos no livro “Ensaio sobre a Cegueira”. Esta é obra densa, apresentando uma reflexão sobre a moral, os costumes, a ética e os preconceitos – verdadeiro palpitar de José Saramago. Aconteceu na apresentação do pequeno grande livro “Democracia e Universidade” no dia 25 de Maio deste ano (publicação da Universidade do Porto da conferência que Saramago proferiu na Universidade Complutense, Madrid, em 2005). A minha mulher e eu ouvimos os reitores (cessante e eleito) falarem sobre este texto do nobel escritor. Para que conste: foram as palavras de Pilar del Rio que entusiasmaram a assistência. No final, cumprimentámo-la. Sentimos a jangada peninsular, o universalismo. Há quem ouse retirar Saramago das leituras pelos jovens nas escolas. Que razões assistem a esta decisão?
