Bragança e as Coisas com Categoria: a arte, sublime rezar…
Colocados perante a arte, a primeira atitude é a de perplexidade. Depois desse inicial sobressalto, então vêm-nos as emoções, a compreensão ou não, a aceitação ou repulsa, a acção e vontade. E o mais que se quiser, por esta ou por outra ordem. A arte tem a capacidade de fazer despertar a mais adormecida das nossas convicções e confissões íntimas.
Bragança tem arte: nos museus, casas, ruas, cafés, livros e postais, barros das feiras, brasões, modas, fotografias dos seus fotógrafos (verdadeiros amantes da cidade!), silhueta dos seus horizontes e paisagens, o homem, com mais ou menos felicidade, desenhou ao longo dos séculos – de milénios! – um traço que passa pela arquitectura, pelas pinturas, pelas esculturas, pela música que se ouve, até nas nossas castiças formas coloquiais, que poderão bem ser resquícios imateriais de jograis, de teatros vernaculares, de práticas religiosas em que a arte teve, desde sempre e com sucesso, um papel de servir para transmitir teofanias e teologia. Mesmo que o não notemos por causa de vivermos nela imersos, a arte impregna tanto, mas tanto, da vida em Bragança, que se torna inconcebível viver sem ela – e ainda bem.
Podemos questionar-nos de onde virá esta quase inata capacidade de nos emocionarmos com arte. Provavelmente por uma atitude das nossas mães ou de alguém a quem acompanhámos, de pequeninos para os mais sortudos, a alguma vez termos estado de joelhos diante duma imagem da Senhora da Graça. Antiquíssima brigantina, desde o século XIX integrada na devoção pela medalha milagrosa e tendo, então, adquirido o plural com que é hoje conhecida, a Senhora das Graças, tem sido para tantos a forma privilegiada de comunicação com Deus, desde logo pela arte. Ainda há dias, ao considerar uma antiquíssima imagem da Senhora da Graça que se encontra no santuário da Senhora do Campo, em Lamas (que durante séculos pertenceu ao concelho de Bragança e hoje faz parte do de Macedo de Cavaleiros), me deixei levar, distraindo-me da missa que decorria, pelo fascínio da imagem tão tosca e tão bela que a tantos mais terá distraído também, captando-nos para a dimensão em que a arte nos faz rezar de forma sublime, no íntimo de cada um.
Há um escultor, Gustavo Bastos, que foi o artista que, entre muitas outras, nos deixou as obras “Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”, do Passeio das Virtudes, no Porto, “O Homem Dominando as Águas” e “O Génio do Rio Douro”, nas torres sul da Ponte da Arrábida, o monumento a Sá Carneiro, na Praça Velázquez.
Quando se passa nesses sítios, imediatamente se pode voar até Bragança, pela capacidade da arte nos transportar no espaço e no tempo, porque uma das esculturas mais discretas e fortes de Gustavo Bastos é, sem dúvida, a da Senhora das Graças, trasmontaníssima, descalça sobre o mundo apocalíptico em que calca e vence o mal, manto de burel, olhar seguro de quem sabe para onde levar-nos, mãos generosas de quem nos dá o poder de a seguirmos.
Esta belíssima e poderosíssima estátua de Gustavo Bastos está muito bem colocada à entrada dum edifício profano como a sua Santa Padroeira, a sua presença hierática: na entrada da Pousada de São Bartolomeu, enquadrada contra a parede de xisto de pico grosso e fino. Impassível mas amiga, a dar-nos as mãos para a eternidade. Nada nem ninguém melhor, para nos dar ali as boas-vindas de forma tão sublime!