A opinião de ...

As Jornadas da redenção

Não resisto a interromper a série «Os problemas Sociais da Habitação» por causa das Jornadas Mundiais da Juventude. Seria injusto não me referir a elas.

Síntese: As jornadas foram um êxito a todos os níveis e todos os que as promoveram e realizaram – sobretudo os jovens – merecem um forte abraço de parabéns. Incluo aqui os voluntários e os agentes da Polícia. O Papa Francisco apontou às Igrejas o caminho para a salvação oferecendo a crença-esperança dos jovens como movimento renovador do amor. Esperemos que o tempo faça amadurecer as mensagens de Francisco, tanto do lado dos mandantes político-sociais como do lado dos líderes religiosos como ainda do lado das vítimas de uma Igreja à espera de soluções para as suas crises.

O Papa dos pobres continua a sua cruzada para transformar a Igreja Católica no albergue protector dos deserdados da sorte e da fortuna e em fonte de justiça e igualdade no seio da nossa sociedade. É isso que ele quer dizer com «todos, todos, todos têm lugar». Enviou um recado às elites religiosas e sociais para construírem uma sociedade mais inclusiva, bem diferente daquela que reserva lugares de privilégio para os ricos e para os fariseus. A Igreja tem de ser exemplo e virtude e, por isso, os fariseus e os criminosos só podem ter ali lugar depois do arrependimento, da expiação e da reparação.
O Papa da cultura de resistência dos oprimidos, protegida e consolidada na sociologia da libertação social construída nas principais universidades da América Latina, desde Buenos Aires ao Rio de Janeiro, passando por Santiago do Chile e Porto Alegre, e bem presente na Encíclica Laudato Si e na Exortação Fratelli Tutti, reenvia-nos para a imagem original das primeiras comunidades cristãs, apelando a modos de vida fraternais e hábitos frugais que evitem e condenem o consumismo e que preservem a natureza no seu estado mais natural.
Em coerência, o Papa elege a figura de Paulo Freire como exemplo de acção pedagógica e social no trabalho de libertação das comunidades excluídas e desprotegidas, trabalhando com elas e no meio delas.
A via metodológica deste Papa choca de frente contra o dogmatismo conservador cristão, e, sobretudo, católico, avivando a divisão da Igreja Católica em duas vias: a progressista e a conservadora, aquela de natureza social-democrata e esta de natureza conservadora e autoritária.
A via social-democrata pugna pela igualdade biológica, social e jurídica de todos os seres humanos e a via conservadora pugna pelo sistema de castas e de hierarquias com base na origem social e na pertença de grupo procurando «vender» e fortalecer a proximidade de Deus aos maiores beneficiários do sistema social.
Estas duas vias foram pelejando entre si ao longo do pontificado de Francisco, revigorando-se a luta à medida que o fim biológico deste Papa se aproxima. A Igreja Católica conservadora cheira demasiado a caruncho.
Na senda da primeira via, na semana passada, o Papa deu um exemplo de renovação nomeando D. Rui Valério, Bispo das Forças Armadas, para Patriarca de Lisboa e D. Manuel Clemente soube escolher o momento para essa renovação num adeus oportuno e exemplar. Parabéns a ambos

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