arquitectura transmontana a gostar dela própria – A Tradição
Fernando Távora, que contribuiu de modo notável para redefinir os termos da prática da Arquitectura em Portugal na segunda metade do século XX, precisou de pouco mais de meia dúzia de páginas para nos ensinar aquilo que realmente importa na disciplina. Através de um conjunto de exemplos, dos quais se destaca a sua participação como responsável da equipa do Minho, no Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal, desconstruiu a ideia errada de que a arquitectura popular é um campo disciplinar à parte, como se fosse possível ser outra coisa que não Arquitectura, e demonstrou que o que se construiu nas nossas aldeias não é senão o resultado de uma herança dessa outra arquitectura que nos foi trazida pelos romanos, há quase dois mil anos.
Embora seja uma questão recorrente, a tradição “não pode ser imposta ou artificialmente criada”. As formas e os motivos decorativos de um qualquer período passado não são factores de qualificação da arquitectura. Dito de modo mais prosaico, da mesma maneira que ninguém na actualidade se sentiria confortável na rua se vestisse roupas do século XV, a nossa arquitectura deve procurar incorporar no presente apenas aqueles princípios e regras que permanecem no tempo longo, acrescentando-lhes uma perspectiva de futuro. Ou seja, o passado serve na medida do presente, como campo experimental em permanente diálogo. A melhor arquitectura é aquela que procura esse diálogo, que se apoia na história como construção intelectual e que procura um denominador comum com outras experiências do passado, independentemente do tempo ou do lugar em que essas experiências tenham ocorrido. Para lhes acrescentar futuro e não como demonstração de inequívoco talento individual.
Importa extrair lições da arquitectura popular transmontana como experiência extraordinária e exemplo de estabilidade e qualidade. Fernando Távora, para quem os praticantes da arquitectura popular foram os grandes mestres, considerava a “casa popular, a mais funcional e menos fantasiosa, numa palavra aquela que está mais de acordo com as novas intenções”. É uma arquitectura que corresponde à Grande Tradição, de uma mesma atitude em relação ao problema central da arquitectura – a construção, como linguagem colectiva. E isso aproxima-a dos princípios que estão na base de toda a arquitectura, incluindo a erudita.
Apesar da variedade e pluralidade das realizações, falar de arquitectura popular, como a de Trás-os-Montes, é falar da permanência de um fenómeno que se pode aferir pela sua modernidade permanente – medida pela relação que mantém com as condições dentro das quais se realiza. Sendo diferentes as condições, terão que ser diferentes as soluções; Pelo esforço de colaboração que sempre traduziu – que se percebe no facto da obra final resultar do esforço colectivo daqueles que a constroem, mas também daqueles que contribuem para a sua fruição e manutenção; E pela sua importância como elemento condicionante da vida do homem.
Quando esquecemos estas contantes, substituindo o essencial pelo acessório ou decorativo, em manifestações que invocam alguns aspectos tradicionais ou de retorno ao passado – como acontece com o gosto pelo pitoresco e pelas recriações de um passado impossível de trazer de volta – a Arquitectura entra em crise. O nosso contributo, enquanto agentes activos na construção do território, é o de tornar explícitas as razões, os fundamentos e os verdadeiros significados da prática, se for, como acho que deve ser, nossa intenção acrescentar futuro à arquitectura da região.
