Bragança

‘Anjos do Apocalipse’ uma nova caminhada de Graça Morais sobre a maldade, o horror e a guerra

Publicado por Glória Lopes em Sex, 01/02/2026 - 14:47

A nova exposição da pintora Graça Morais ‘Anjos do Apocalipse’ patente no Centro de Arte Contemporânea (CAC), em Bragança, revela ao longo de 70 obras, das quais 40 são inéditas, uma visão sobre a realidade mundial, em especial os conflitos e as guerras. São os medos, as angústias e os desejos da artista transmontana mas de dimensão internacional.

Trata-se de uma exibição em que a artista quer oferecer ao público “a oportunidade de, no silêncio das salas, poder encontrar-se, refletir e ter tempo para pensar”, contou ao Mensageiro.

A arte, a dela e a de José Loureiro, cuja exposição foi inaugurada também no dia 20 de dezembro, é “o mundo oposto ao das redes sociais”. No CAC convida-se à contemplação e à reflexão. “São obras que tem a ver com a minha preocupação sobre o que se passa no mundo. O domínio dos fortes sobre os fracos”, salientou Graça Morais.

Esta é uma exposição onde a artista mais uma vez mostra a sua resistência “face à maldade, ao horror, às guerras e aos conflitos sem esperança” que o mundo atravessa, nomeadamente na Ucrânia e na Faixa de Gaza, palcos de horror e morte.

A fragilidade humana está bem patente nestas obras que resultam, muitas delas, do que sintetiza das imagens de sangue e violência que lhe chegam através dos jornais e da televisão, recolhidas em zonas de tragédia, como a Faixa de Gaza. “Acho que apresentar esta exposição, neste tempo de Natal, tão dura, talvez não seja o mais agradável para quem vai ver, mas este ano foi duríssimo para o mundo”, referiu a pintora durante uma visita guiada à exposição, na qual participou o curador e diretor do CAC, António Meireles.

O próprio título da mostra ‘Anjos do Apocalipse’ é, segundo Graça Morais, “duro”, especialmente quando foi inaugurada numa altura em que se fala de fraternidade. “Foi também um ano duríssimo para nós [portugueses] com tantas eleições, um exagero de debates nesta campanha para eleger o Presidente da República. Estamos todos a ser perturbados com várias situações que não são normais”, lamentou a artista.

Uma boa parte das obras exibidas foram produzidas ao longo de 2025, mas algumas são mais antigas, remontam a 1987 e 2005, mas foram escolhidas “por fazerem um diálogo com as mais recentes” e para se compreender melhor o seu percurso como artista. “Tive sempre uma grande preocupação sobre o mundo e também se percebe melhor a minha forma de ser enquanto mulher e artista”, indicou.

Na realidade é difícil fugir na sua obra a uma visão maniqueísta da vida, que a acompanha desde criança, através das histórias, dos contos e lendas que ia escutando no Vieiro, aldeia do concelho de Vila Flor, de onde é natural. Acredita que na vida se encontram Anjos bons e Anjos maus. “Desde criança que eu sempre ouvi falar do Diabo, ouvi falar de Deus e ouvi falar dos Anjos. Os Anjos bons são as pessoas boas que me protegem e me ajudam, criam laços de empatia, amizade e amor, mas infelizmente também estamos rodeados de Anjos negros, que não são Anjos, são diabos”, explicou.

Estes seres malignos, que se movem entre a luz e a sombra, que fomentam e espoletam as guerras, e que, depois, a artista transfigura e transporta para a tela. “Há essas forças más que provocam as guerras. Estamos a assistir a líderes mundiais que são mentirosos, que são manipuladores e falam na democracia e na justiça, mas é tudo falso. Fazem guerras em nome de Deus e provocam o que aconteceu em Gaza, que foi um verdadeiro genocídio”, observou Graça Morais, que nos entrou casa dentro pela televisão.

A artista vislumbra ainda outros perigos. O poder nas mãos de meia dúzia de ultra-milionários que dominam a tecnologia e as redes sociais, que criam dependência e novos tipos de escravatura também a preocupa. “Estão a criar-nos o mesmo pensamento e uma escravatura a partir das ideias que eles entendem e que mandam para todo o mundo”, descreveu. São estas ideias de um novo autoritarismo que, no entender da artista, “afetam partidos políticos e governos”.
O sobressalto que causam personalidades, como Trump, afetam-na. “Eu podia pintar a natureza, fruta, formas abstratas e esquecia-me desse mundo, mas eu obedeço a uma necessidade de pintar e passo para a pintura o que observo”, acrescentou.

A Internet é muito útil pelo acesso à informação e até aos livros, já as redes sociais “são muitas vezes perversidade, dado que o algoritmo leva os jovens, até, a cometerem suicídio”, nota Graça Morais.

Há pelos quadros uma espécie de fantasmas quer dos amigos e familiares do Vieiro, que já morreram e que pairam sobre as paisagens primaveris transmontanas, mostrando as memórias, quer de demónios sintetizados pelo olhar jornalístico, que lhe entram pelas cenas veiculadas pelos media. São as pietás atuais, espécies híbridas entre o humano e o animal, algumas têm cabeça de ovelha ou de carneiro e choram as crianças mortas em Gaza.

Ainda assim, mesmo na maior escuridão das trevas vislumbra sempre uma luz ao fundo do túnel, que encontra em oásis de paz, tranquilidade e beleza natural em aldeias transmontanas, como o Vieiro, a sua terra natal, ou Freixiel, onde tem casa.

Todos os dias leva as imagens de brutalidade sanguínea para o seu atelier na Baixa de Lisboa, um lugar onde não se isola do mundo. “É um lugar onde eu em total liberdade crio obras que têm a ver com o meu carácter e a minha reflexão sobre esse mundo. Por isso as notícias e a leitura dos jornais são importantíssimas”, esclareceu.

Esta sua leitura do mundo junta-a à dos livros, escritos por grandes pensadores, filósofos e historiadores, “que nos ajudam a ter consciência”. Assim vai aprimorando a sua visão e reflexão sobre o domínio dos fortes sobre os fracos, os resquícios de liberdade que alguns países vão perdendo. O que a consome.
É nesse lugar, numa zona muito barulhenta da capital, que pinta o que considera ser a sua verdade. “Não quero enganar ninguém em relação àquilo que estou a pensar. Ponho todas as minhas energias naquilo que estou a pintar e a desenhar. Estas energias têm a ver com a verdade que vem da minha alma e do meu corpo”.
Por vezes, Graça Morais sai de Lisboa e ruma a Freixiel, aldeia de Vila Flor, onde também tem um atelier, para fazer “curas de silêncio, e de paz”, onde encontra a “natureza na sua grandeza”. Porém no Vieiro também encontra a ausência das pessoas que amava e que já morreram, o isolamento e o despovoamento. “As Marias, a minha mãe e a Maria, que enchiam o meu imaginário. Agora venho de lá quase sempre a chorar porque não há ninguém. Como é possível as aldeias ficarem tão desertificadas?”.

A distância entre Bragança e Lisboa ainda é um obstáculo, mas Graça Morais quer sugerir à nova autarca brigantina que traga ao CAC grandes pensadores, historiadores, escritores e gente de várias áreas para falar sobre a importância da arte na vida. “Para essas pessoas virem perdem três dias. Bragança perde porque está longe de Lisboa”, assegurou. Face à realidade dos quilómetros, Graça Morais sugere que se reforcem as viagens por avião para aproximar Bragança das cidades do Litoral, e facilitar as deslocações entre Trás-os-Montes e outras regiões.

Assinaturas MDB