A arquitectura transmontana a gostar dela própria – Caminhos da água, regadio
O relatório “Falência Hídrica Global”, apresentado em Janeiro deste ano pelo Instituto para a Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, refere que o abastecimento de água no mundo entrou numa era de falência, após décadas de usos excessivos, poluição e perturbações causadas pelas alterações climáticas. Sabemos que a água é a infraestrutura silenciosa que está na base da segurança e prosperidade humana. Desempenha, portanto, um papel central na fixação das comunidades e na estruturação do território. Não há aglomerado tradicional, pequeno ou grande, que não esteja associado a uma linha de água e que não tenha sido exemplar na sua gestão. Deveremos procurar perceber de que forma as comunidades locais, num contexto que não era de abundância, desenvolveram técnicas de racionalização dos recursos disponíveis, tendo perfeita noção do equilíbrio necessário com o meio envolvente, para o seu bem-estar.
A utilização de água para fins agrícolas, para uso doméstico e para os animais é uma constante por toda a região transmontana. A adaptação humana ao território, apenas se pode verdadeiramente compreender considerando a proximidade de água e as formas encontradas de a gerir. Os pequenos ribeiros transformados em canais de regadio ou levadas que percorrem quilómetros desenharam uma paisagem única, pela importância da rega de lima na qualidade dos lameiros e no controle das linhas de água - prevenindo eventuais cheias e erosão dos solos no inverno, e promovendo uma biodiversidade da flora que ajuda a controlar os incêndios no verão, através da descontinuidade das áreas regadas nos cobertos florestais. Mas também pela relevância cultural e patrimonial destes sistemas na gestão do minifúndio, de que são indissociáveis, e na importância da participação da comunidade rural, na gestão e conservação das infraestruturas, aperfeiçoada ao longo de séculos, e na distribuição da água de acordo com o que era devido a cada um dos agricultores.
Algumas aldeias fazem a captação de água para regadio em linhas de água distintas. É o caso de Santa Cruz, no concelho de Vinhais, exemplo extraordinário do aproveitamento da água na estruturação da aldeia, onde há três pontos de captação, em locais a cotas variáveis. Todos têm início em açudes construídos para armazenamento e encaminhamento da água das ribeiras para os canais. Estes, por sua vez, serpenteiam os lameiros, numa descida muito leve que acompanha a topografia existente, repousam em pequenos reservatórios originalmente escavados na terra e, depois de atravessar alguns caminhos e distribuir a água pelos vários talhadouros ou bocas de rega, juntam-se no centro da aldeia, de onde continuam a descida, contornando as hortas a nascente, até entrarem no rio Tuela perto do moinho da aldeia.
Talvez possamos encontrar novas soluções de aproveitamento da água e do seu movimento descendente num futuro próximo, para gerar outras formas de desenho da paisagem, da nossa fixação neste território e de colaboração com a terra. Para já, a reabilitação destes sistemas tradicionais de regadio, revela-se essencial para valorizar o conhecimento da agricultura, dos recursos biológicos e da cultura transmontana. A pertinência desse desafio deve motivar abordagens participativas, que promovam uma organização social da procura, fundamental para a implementação e sucesso de novas estratégias.
