A opinião de ...

A arquitectura transmontana a gostar dela própria – Fachadismo

Em arquitectura, fachada é qualquer uma das faces exteriores de um edifício que, por definição, permite ao seu interior comunicar com o espaço público. Ou seja, é a pele que reveste os edifícios e os protege do clima e da intrusão. Não sendo portadora em exclusivo de todo o simbolismo histórico capaz de garantir, pela sua manutenção, a identidade e autenticidade do edifício, não deve ser analisada como elemento autónomo. Faz parte de um todo que é o edifício, porque foi desenvolvida de modo coerente com o seu interior, em termos de técnicas construtivas, mas também de tipologia, materiais, volumetria, estrutura, parcelamento e morfologia urbana.
A autenticidade do património arquitectónico está, em grande medida, na própria materialidade dos testemunhos edificados que nos chegaram e no modo como nos foram transmitidos. Consequentemente, a redução das intervenções a um problema de escolha individual de um projectista, que se opõe ao colectivo existente e estabilizado de uma determinada zona histórica, em nome de liberdade criativa ou de alegada adequação à actualidade das exigências de mercado, conduz, inevitavelmente, à alienação da arquitectura, à perda de autenticidade e a resultados profundamente negativos. Essa alienação da arquitectura exprime-se na cidade histórica através de uma prática muito popular no discurso político e entre operadores imobiliários, que se conhece por fachadismo.
É uma tendência que incorpora a outra definição de fachada que conhecemos – a de aparência que não corresponde às qualidades reais de algo ou de alguém. Consiste na demolição integral do miolo de um edifício ou quarteirão antigo - coração do património arquitectónico – e na sua substituição por construção nova, sob a capa de um aparente respeito patrimonial, com a manutenção acrítica da fachada original sobre a rua principal, que deixa de ter qualquer relação ou ligação tipológica e construtiva com o interior. Curiosamente, é uma prática que erra o alvo em toda a linha. Se por um lado, é falsa quanto à garantia de autenticidade na conservação do património, por outro, impede que a arquitectura nova tenha um rosto visível do espaço público. Já aqui referi, é o equivalente a, em pleno século XXI, andarmos na rua com roupas do século XVI.
Vem isto a propósito de um conjunto de intervenções recentes (e algumas já não tão recentes), no centro histórico de Bragança e da denúncia, absolutamente pertinente, feita pelo Reverendíssimo Padre Estevinho Pires nas páginas deste jornal, a 2 de Julho deste ano, com o artigo intitulado Encerra a obra sem Chave d’Ouro, que subscrevo na íntegra.
Em zonas classificadas das nossas cidades, como acontece com o chamado centro histórico de Bragança, às quais reconhecemos e devemos reconhecer interesse público e valor patrimonial, não se percebe como são permitidas operações de falsificação histórica travestidas de reabilitação, como é permitido o encobrimento do aumento volumétrico, do aumento de áreas e a alteração da matriz fundiária. Falta controlo mais rigoroso da real ocupação do solo e, sobretudo, faltam políticas locais de reabilitação, que permitam conservar a autenticidade, defender a intervenção mínima onde a máxima não é sustentável nem aconselhável e, sobretudo, recusar de forma veemente o fachadismo.

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