O desgoverno dos incêndios
A cada ano que passa, as imagens dos nossos concelhos reduzidos a cinzas e as populações, de mãos na cabeça, reduzidas à descrença, pululam nas televisões e nos jornais.
Ao longo dos últimos 40 anos (os que eu me lembro), há tradições de verão que se mantêm inalteradas: as idas à praia, as festas nas aldeias, a Volta a Portugal em bicicleta e os incêndios florestais.
Ao longo de quatro décadas, já se fizeram dezenas de planos, estudos, mais planos, e mais estudos. Mas a floresta continua constantemente a arder. Com uma agravante: o combate aos incêndios está mais caro, porque se investe na proteção durante o inverno, e no combate durante o verão. Mas nunca se tomaram as medidas que verdadeiramente importam e que todos os estudos apontam como essenciais.
O que temos é um combate desgarrado, assente na valentia dos Bombeiros Voluntários (que estão cada vez mais profissionais, sem o serem na realidade) e no voluntarismo das populações.
As guerras de poder dentro das estruturas da Proteção Civil levam à saída dos melhores e, muitas vezes, à promoção dos medíocres, desde que alinhados com os poderes instituídos.
A saída do brigantino Carlos Alves do Comando Regional do Norte da Proteção Civil, cargo que ocupou por uma mão cheia de anos, por ter coluna vertebral e alegadamente recusar compactuar com arranjinhos políticos da Liga de Bombeiros, é apenas um dos exemplos, e que aconteceu com a época crítica de incêndios a começar.
Como há muitos outros pelo país fora.
Olhe-se para o que aconteceu em Dine, Vinhais, onde cinco bombeiros precisaram de receber assistência médica e uma viatura (nova) ardeu.
A viatura vinha integrada numa coluna de bombeiros, que seguia por um caminho florestal, em subida. A meio, um grupo de sapadores florestais, numa carrinha amarela, em que apenas um deles falava português, e com mais experiência na limpeza de floresta no inverno do que no combate aos incêndios no verão, entrou no meio dessa coluna. Perante as chamas, esses elementos ter-se-ão assustado, abandonando a carrinha e correram, entupindo o caminho, alegadamente provocando a confusão na coluna de bombeiros que levou aquela viatura a ficar encurralada e a ser apanhada pelas chamas. Felizmente, nenhuma vida se perdeu mas esses bombeiros tiveram de correr ladeira abaixo para se refugiarem num curso de água e, ainda assim, sofreram queimaduras.
Também não faltam exemplos de situações em que tanto populares como as próprias autoridades identificam os autores das chamas (eventualmente como no caso deste incêndio que alastrou a Hermisende, em Espanha), mas que acabam, quase invariavelmente, restituídos à liberdade depois de apanhados, dando asas a que se mantenha a prática... e os incêndios.
Meus senhores, organizem-se. Os fogos estão cada vez mais intensos e não se compadecem com tamanha desorganização.
Daqui a poucos anos, Portugal corre sérios riscos de ser o Saahara do continente europeu.
